“O que aconteceu com a gente, Jerry?” “Vou te dizer o que aconteceu: nós casamos.”

The Wife, ou “Aquele com a participação da Monica”, me faz pensar nessa pergunta-clichê que sempre acaba aparecendo nas mesas de bar quando alguém se dispõe a fazer uma “profunda reflexão” sobre como o amor é retratado na ficção: por que será que os filmes sempre terminam na parte do “felizes para sempre”, sem mostrar a vida do casal? O divertido é que de profunda essa reflexão não tem nada, e normalmente é feita por alguém sem muita vivência ou entendimento sobre os mistérios que envolvem os relacionamentos humanos. A resposta é a mais simples possível: os créditos sobem e a luz do cinema acende na parte do “felizes para sempre” porque se a história fosse mais longa veríamos que isso é uma grande mentira, que simplesmente não se sustenta. No limite, é extremamente difícil ser feliz junto de alguém, que dirá para sempre.

O problema está no que pensamos ser felicidade. Essa felicidade que a ficção, e não só ela, nos enfia goela abaixo como ideal não é exatamente a que intimamente procuramos. É quase uma felicidade de mentirinha, como são as relações do episódio, aliás. Felicidade mesmo (de um ponto de vista bem egoísta) é arrotar sempre que quiser, é coçar o saco na rua e dançar de cueca. É poder cutucar o nariz e, como George, poder mijar no chuveiro da academia. Felicidade é poder fazer todas essas coisas gostosas de que abrimos mão quando assinamos o contrato que nos permite viver em sociedade. Percebam, nada do que citei até agora necessita da participação de outra pessoa. Há o sexo (e sei que alguns dos leitores mais atentos já pensaram nele), mas há controvérsias sobre quantas pessoas estão realmente implicadas na relação, no ato sexual, mesmo durante uma suruba. Existem pessoas que só fazem sexo com elas mesmas, mesmo quando estão acompanhadas. “O sexo solitário é o único que você faz com quem você realmente ama”, já diria Woody Allen.

Mas tergiviso. O fato é que quando assinamos esse tal contrato de não arrotar em público para não sermos presos pela polícia ficamos com um sentimento incômodo de que algo está faltando, de que ficamos incompletos, podados. Fica esse buraco que a gente preenche, entre outras coisas, com as mais diversas fantasias de grandeza, de sermos pessoas incríveis, de que podemos conquistar quem quisermos, quando quisermos, e para a maioria das pessoas essas fantasias bastam. No fundo a galera sabe que não dá para ser feliz assim, então “que eu pelo menos possa fantasiar que consigo”. Se algo dá errado, se você se sente rejeitado e pouco atraente, é só se esconder na fantasia, como Elaine diante do idiota: “eu não queria mesmo, estou noiva e vou me casar daqui a 50 anos”.

O problema é o outro. A intimidade é uma demolidora de sonhos e fantasias e crenças cuidadosamente construídas ao longo de anos de filmes e músicas românticas e conversas com nossas mães. Quando nos aproximamos demais de alguém, sem proteção e sem distância regulamentar, é a imagem que temos de nós mesmos que se põe em risco. Daí todas essas regras sobre a delimitação do espaço pessoal (e Seinfeld brinca maravilhosamente com esses códigos todos de conduta). No fundo, nosso amigo jerk que pega George mijando no banheiro da academia está menos preocupado com a questão da higiene que com a ousadia do baixinho careca em quebrar os códigos de conduta que nos mantém confortavelmente afastados. Guardadas as devidas proporções nessa comparação, casais costumam demorar a usar o banheiro na presença um do outro, e acho mesmo que uma grande porcentagem das pessoas nunca chegará a isso.

Jerry e Monica (não me importa o nome da personagem no episódio, ela sempre será a Monica) fingem que são marido e mulher para conseguir um desconto de 25% na lavanderia, e a brincadeira foge do controle deles. No começo tudo são flores, e todas as frases parecem certas quando começadas com “minha esposa”, mas logo a intimidade vem estragar até mesmo essa relação fictícia. No final, Jerry se desculpa: “eu não estava pronto para as responsabilidades de um casamento de mentira”. A genialidade do episódio está justamente na encenação dessa mentira, mas dá para dizer que algo aí é dolorosamente real: raramente estamos prontos para as responsabilidades da vida a dois, justamente porque para viver com alguém precisamos de alguma forma deixar de lado muito daquilo que acreditávamos ser, recomeçando e se reinventando, abrindo mão da felicidade idealizada e daquela que teríamos sozinhos, em nome de outra, a ser construída com o outro. É um desafio e tanto.