Eu já levei mulheres ao lesbianismo antes, mas nunca a uma instituição mental.

O resumo desse episódio não é daqueles que poderia ser feito numa única frase como tantos outros episódios da série. Até mesmo uma espécie de conflito aparece para ser resolvido e até mesmo personagens externas aparecem como peças fundamentais para que a história ande. Num dos polos, Jerry tenta acertar a sua vida com o IRS recorrendo à ajuda de Patrice – nova namorada do George, contadora e ex-funcionária do Fisco. Do outro lado, Elaine se enfurece com a desordem que está tomando conta do seu apartamento por culpa de Kramer – novo namorado da moça com quem ela divide apartamento, cozinheiro desorganizado e espalhafatoso dançarino de ritmos tribais.

A trama se desdobra quando George resolve abandonar Patrice e quando Kramer acidentalmente é agraciado com a visão da Elaine – waal – completamente nua.

Eu gostei bastante do recurso narrativo da história se voltar para um ponto distante no passado, numa época bem anterior ao início da própria série. Mesmo nesse passado é feita de mesquinharias e pequenas misérias a parte da vida dos personagens à qual nós temos acesso. E o que se vê é um dos dilemas essencialmente masculinos, o de faltando outros atributos morais ou intelectuais, tentar impressionar as mulheres do jeito que as circunstâncias permitirem. No caso de Jerry no seu primeiro encontro com a Elaine, doando um dinheiro para uma instituição que ajudaria os krakatoanos com um vulcão que supostamente iria entrar em erupção.

Mas são vários os detalhes legais desse episódio. O algo mítico Bob Sacamano é citado, como sempre, num contexto perfeitamente improvável de bizarrias médicas. É também a primeira vez que a noção visionária que o Kramer construiu ao longo dos anos no departamento das mesas de café é apresentada (fiquei bobamente feliz de ter notado isso antes de ter revisto o episódio com as Notas sobre o Nada do DVD). Outra coisa: acho que é a primeira vez, e talvez a única, em que alguém se refere ao Jerry como Jerome (preciso verificar se o nome dele não é falado no Season Finale, sei lá, pelo meirinho).

Agora, se toda a tensão do episódio está nas consequências do George dizer a verdade para a namorada, a autêntica preciosidade está nele admitir algumas verdades para si mesmo. Como, por exemplo, quando ele diz que a sua vida inteira foi um desperdício. Ou quando ele diz que é bom as pessoas terem pena de você. “Pena é muito subestimada”. Alguém aí para discordar?

Desses momentos de sinceridade extrema, quase sentimentais, a cabeça dele gira uma vez e se volta para uma preocupação recorrente e paranóica, mais carnal, a de saber se existe algum odor saindo do seu corpo que ele não esteja sabendo; gira mais uma vez e então se volta para uma espécie de delírio lisonjeador de que ele nunca foi pão-duro: “I spent, baby, I spent”.