Se eu tivesse uma empresa, meus funcionários iriam me amar. Eles teriam fotos minhas em suas paredes e em suas casas, como Lenin.

Imagino a surpresa de Seu Felipe, a mando de quem escrevo este texto (entregue com atraso), ao saber que não sou fã de Seinfeld. Aceitei o convite sem revelar a ele esse pequeno detalhe.

Circulo em estratos sociais (autores do Interbarney, jornalistas, metidos a engraçadinhos) de cujos membros se pressupõe, entre outras coisas, o fanatismo por Seinfeld. Não é meu caso.

Não aprecio baixo slap e antipatizo com o velho clichê de que Seinfeld é uma série “sobre o nada”. Os fragmentos que capturei em zapeadas pela TV a cabo ao longo dos anos nunca me instigaram a ver um episódio inteiro.

Mas nunca ter visto um episódio inteiro de Seinfeld, além de ser um tanto vexatório, revela ingratidão, já que ele exerce grande influência em boa parte das séries de comédia atuais que aprecio. Tento, assim, corrigir essa injustiça.

Em The trip, episódio duplo que inaugura a quarta temporada, Jerry é convidado para se apresentar no Tonight Show, de Jay Leno, em Los Angeles. Ganha duas passagens e leva consigo George. Lá os dois vão ao encontro de Kramer, que, como ficamos sabendo no episódio anterior (The keys), está na cidade tentando fazer carreira de ator.

Três atores, aliás, fazem boas participações especiais, interpretando a si mesmos: Fred Savage (Anos Incríveis), Corbin Bernsen (Nos Bastidores da Lei) e George Wendt (Cheers).

Antes do início do Late Show, nos bastidores, George encontra Bernsen e Wendt, convidados do programa. Importuna os dois sugerindo-lhes ideias bestas (em sua cabeça, brilhantes) para os programas que estrelavam. Nas entrevistas a Jay Leno, ambos ridicularizam o “maluco” que lhes abordara minutos antes.

(Jay Leno, aliás, não aparece em nenhum momento do episódio, assim como Elaine – Julia Louis-Dreyfus desfrutava de uma licença-maternidade.)

A participação de Jerry no Late Show é um desastre. Ele esquece da piada que escreveu, registrada em um guardanapo amassado que Lupe, camareira do hotel onde está hospedado com George, havia jogado fora.

Confundido com um serial killer, Kramer é procurado em Los Angeles. Jerry e George ligam para o 911 para tentar desfazer o engano e são conduzidos à delegacia num carro de polícia. No caminho, os tiras flagram um homem tentando arrombar um carro e prendem-no. No banco traseiro do carro, George, Jerry e o marginal travam um diálogo surreal sobre… gorjetas.

Uma denúncia sobre o caso do serial killer faz o carro da polícia parar novamente. Num descuido dos tiras, o bandido foge. Kramer é preso.

Enquanto Kramer é interrogado, descobre-se mais um assassinato do serial killer. Comprova-se, assim, a inocência de Kramer, que é libertado.

Ao fim do episódio, um telejornal revela a identidade do verdadeiro serial killer: era o ladrão que dividira o banco traseiro do carro da polícia com George e Jerry.

Neste meu tardio primeiro contato com Seinfeld, simpatizei especialmente com Kramer. É ele que estrela as cenas mais engraçadas do episódio, como a das malfadadas audições de que participa e a de seu desastrado encontro com Fred Savage, a quem tenta convencer a estrelar o roteiro que escreveu.

A rigor seria isso. Fica aqui o meu abraço a todos os fãs de Seinfeld.