As grandes empresas do mercado de ações mataram meu pai.

Tem uma coisa em humoristas – e pessoas criativas em geral, na verdade – que eu gosto muito, que é aquilo do “fazer por fazer”. É criar algo basicamente pra mostrar que você é foda, que você sabe o que está fazendo. Sem temas definidos, sem piadas-prontas. É simplesmente fazer. Às vezes é uma coisa meio metida até, ver alguém se mostrando tão melhor de um jeito tão básico.

Seinfeld, a série, é inteira sobre isso. Mas esse episódio do metrô me chamou mais a atenção.

Acontece que Jerry, George, Elaine e Kramer precisam pegar o metrô pra ir resolver assuntos distintos. E é isso, cada história é separada, são quatro linhas do tempo. Eles aparecem juntos na primeira e última cena, no Monk’s. Cada cena é um exercício pra cada um dos atores. Sem a “escada” dos outros, cada um deles age sozinho e esfrega na nossa cara como eles são bons.

Jerry quer aproveitar a viagem pra visitar o parque de diversões de Coney Island. “Aproveitar a viagem” não quer dizer nada, já que ele só está indo pra poder brincar nos brinquedos, ele não tem mais nada pra fazer. Durante a viagem ele dorme e quando acorda tem um cara gordo pelado lendo o jornal no banco da frente dele, e os outros passageiros estão todos de pé, isolados num canto. Isso me lembrou os tempos de colégio, quando um colega dormia e a gente afastava todas as mesas ao redor dele e quando o professor olhava o cara tava “ilhado” no meio da sala, dormindo. Jerry acorda, vê o cara peladão, e começa uma discussão com ele. O gordo diz que é orgulhoso do corpo, e todas essas merdas naturalistas. Jerry vai cheio de argumentos espertinhos pra cima dele e no final eles estão falando de beisebol e os dois vão, vestidos, juntos ao parque de diversões.

A linha do George é a que eu mais gosto, porque o George é meu personagem favorito. Ele ia fazer uma entrevista de emprego ou algo assim. Jerry chama ele de Biff e diz pra ele não assoviar no elevador, em uma referência a Morte do caixeiro viajante. Ele conhece uma mulher no metrô, e aquela cena é brilhante. Ele está lendo um jornal, a parte de empregos. Essa mulher, que depois a gente descobre ser uma golpista safada, vê ali uma oportunidade. O George de terno, lendo o jornal, com uma pasta, ela acha que ele é um cara rico, e começa puxando assunto. E o que se segue é um prova simples de que George Costanza é um personagem genial. A mulher pergunta se ele tá procurando emprego, e ele pra disfarçar diz que estava olhando as ações e emenda uma história absurda e fantástica sobre trabalhar na bolsa, sobre o pai dele. Ele basicamente dá um golpe na mulher que estava tentando dar um golpe nele. E o engraçado é que ele não percebe que era um golpe, ele manda aquela ladainha porque é assim que ele é. Ele sempre dá golpes, sempre conta aquelas histórias.

Elaine está indo no casamento de duas lésbicas, ela é a madrinha. Acho a parte dela a mais fraca, mas tem ótimos momentos, como a conversa com a mulher que diz que na década de 40 os homens cediam o lugar às mulheres e que agora que elas são “livres” isso já não acontece. Elaine concorda e elas entram no assunto do casamento lésbico e a mulher foge assustada, como se a Elaine tivesse AIDS. Curtos os comentários ~feministinhas~ das Elaine. Não gosto muito do voice-over.

Kramer tem duas cenas nesse episódio, físicas é claro, que estão entre as minhas favoritas de todos os tempos. A primeira é ele entrando no trem. Enquanto todos os outros entraram RICO SUAVE, ele entra todo atrapalhado e acaba tendo que sentar ao lado de um gordão que ocupa quase dois lugares. Depois ele ouve dois caras conversando sobre uma corrida de cavalos, um desses caras tem uma aposta certa. Kramer sente o sangue fervendo e vai fazer uma apostinha. Aliás, nem sei por que ele tava viajando, acho que era só pela companhia. Ele vai fazer a aposta, joga tipo 6 mil dólares no cavalo. Aí começa a corrida e o cavalo dele, que tava ficando pra trás (pelo que tava dando pra entender da cena) começa a dar uma arrancada tipo na última curva. E ele indescritivelmente começa a correr junto com o cavalo, que acaba ganhando no final.

Algumas cenas do Jerry e do Kramer me lembraram os melhores momentos do Mr. Bean.

Enfim, esse episódio é um exercício, só pra eles se aparecerem e mostrarem como são bons. E não dá pra dizer “esse foi um episódio do Kramer, ou do George”. Esse episódio é de todos, todo mundo saiu ganhando.