Sopa conta!

Vejam bem, é um erro considerar Seinfeld como um sitcom – mesmo que seja, com toda a justiça, o melhor sitcom de todos os tempos, o mais bem acabado exemplo do formato, o zênite do estilo. Seinfeld é, na verdade, um compêndio que resume e contém TODOS OS POSSÍVEIS ASPECTOS DA EXPERIÊNCIA HUMANA EM SOCIEDADE. Shakespeare? Joyce? Nelson Rodrigues? Pense de novo. Há um quadro, uma piada, um diálogo de Seinfeld que se encaixa em qualquer situação REAL que possa acontecer entre duas ou mais pessoas. Em algum momento, VOCÊ vai se ver em uma situação, vai conhecer uma pessoa ou travar uma conversa que só poderiam ser descritas como seinfeldianas. E essa verdade se evidencia até mesmo em episódios menos memoráveis da série, como é o caso de The Soup. A impertinência humana, a dificuldade de superar velhos hábitos, a maneira correta de retribuir um favor, e, principalmente (como está claro no diálogo que abre o texto), a importância de saber dizer a coisa exata no momento certo – tudo isso é abordado em meros 22 minutos.

Ah, claro, também dá para rir um bocado. The Soup merece menção no cânone seinfeldiano por ser o episódio de estreia de Kenny Bania (Steve Hytner), o comediante medíocre e sem-noção que, em lances posteriores, acabaria namorando Uma Thurman (!) e recebendo a tutela do próprio Jerry. A sopa do título é o pomo da discórdia; Bania dá um terno (Armani) a Jerry e pede, em troca, que Seinfeld pague um jantar a ele. Um prato de sopa conta como um jantar completo? Eis uma questão pertinentíssima, se não em um nível existencial (como várias outras questões levantadas no seriado), ao menos no complexo âmbito das relações sociais que todos nós precisamos manter com pessoas que desprezamos.

Mas, para variar, a estrela é Costanza. A intraduzível pendenga semântica na qual George se envolve, ao debater a gramática da palavra manure (esterco), é uma das melhores demonstrações da intrincada e obtusa linha de raciocínio do personagem. A situação ganha pontos extra ao retornar em outro grande momento de George – ele retoma a conversa sobre esterco com Marisa Tomei na temporada seguinte e arranca gargalhadas da moça! (Menos inesperado é o fato de que George, claro, se dá mal de qualquer maneira, em ambos os episódios.) É mais um exemplo de como a neurótica “lógica” dos protagonistas transforma um assunto completamente trivial, desprezível até, em um lance decisivo na vida de todos. Ou seja, igualzinho à vida real.