Ele falava muita gíria? Ele usou o termo “cara”?

Sabe quando você está assistindo um filme, um desenho, uma série, ou o que seja, vê uma coisa e pensa logo de cara que algo vai acontecer por causa daquilo? Pense nos desenhos antigos, onde a gaveta a ser aberta era claramente diferente das outras. Você sabia com qual objeto do cenário o personagem ia interagir só de olhar pra coisa. Outro exemplo: quando um ator famoso pinta no meio de uma lista de coadjuvantes num filme. Dá pra saber qual dos entrevistados vai ser o escolhido, ou qual deles vai fazer a piada mais engraçada, é sempre alguém mais reconhecível que os outros. Entendeu onde eu tô querendo chegar? Pense naquela blusa ridícula do Jerry aqui nesse episódio. Aquela blusa é a gaveta laranja no armário amarelo.

Não quero ficar aqui julgando figurinos dos anos 90, quem sou eu pra isso, mas é óbvio que o Jerry usar aquela blusa é roteirismo. Tava na cara que o papel dela no episódio seria importante, algo tinha que acontecer pra justificar a presença daquilo. Aquilo é muito mal gosto, até pros anos 90.

A trama do episódio gira em torno desse contador que cuida das finanças do Jerry e faz o imposto de renda pra Elaine. Eles acham que ele é um drogadito, cheirador, cocainômano, porque na vez que o encontram ele está fungando e indo ao banheiro e planeja uma viagem pra América do Sul. Isso gera algumas situações bem engraçadas, daquelas cheias de coincidências, alguns ótimos momentos do Kramer – inclusive uma das clássicas dele, tomando uma caneca de chopp com um cigarro na boca, – o Newman também aparece e está bem.

Do outro lado, o pai do George está tentando achar um emprego pra ele, como vendedor de sutiãs. Eu gosto mais dessa trama. O pai e a mãe do George sempre são engraçadíssimos, só ficam discutindo o tempo inteiro. E aqui também tem uma chave, como a blusa feia do outro lado do episódio. Mas não é um objeto, é uma fala. George vai fazer a entrevista de emprego lá, e está mandando aquela velha lábia marota no entrevistador, que fica impressionado. E é aí que rola: o cara fala algo como “olha, a não ser que algo aconteça, a vaga é sua”. Ali! Quer dizer, “a não ser que algo aconteça”, esse “a não ser que” não existe. Algo sempre acontece. Algo sempre dá errado, principalmente com o George. É isso que ele faz: as coisas darem errado. Eis que menos de um minuto depois ele já está passando a mão na filha do chefe e perdendo a vaga.

E no final, a culpa era mesmo da blusa.