Gastei dinheiro na fechadura mais impenetrável que existe, mas ela tem uma falha no design: a porta tem que estar fechada!

O nome do episódio é The robbery só porque há um roubo na casa de Jerry quando ele deixa Elaine uns dias por lá. Mas o melhor título seria A new apartment, já que o ponto alto da história é a possibilidade de Jerry se mudar para um belo e amplo apartamento. Infelizmente, não foi só na escolha do título que a equipe mandou mal. A história toda carece de boas piadas. Trata-se, senhoras e senhores, de um “episódio menor” de Seinfeld.

Existem fãs de Beatles que não admitem que o quarteto de Liverpool tenha feito algumas musiquinhas fracas (“Revolution 9? Ah, essa é um experimento, não conta!”, dizem eles). Será que o mesmo acontece com os fãs de Seinfeld? Podemos admitir que há episódios fracos naquela que é apontada como a melhor série cômica de todos os tempos? Pois este aqui é uma prova de que nem sempre, ainda mais no começo da estrada, o seriado foi genial.

Não digo isso só porque faltaram piadas e situações excepcionais (uso “excepcional” no sentido literal, não pra disfarçar a carga pesada da expressão “criança retardada”). Na verdade, The robbery chega a trazer umas bobeiras constrangedoras, como quando Elaine brinca de “sombra” de Jerry, imitando seus gestos enquanto ele toma a decisão sobre alugar ou não o novo apartamento. Coisa de artista de rua (uso “artista de rua” para evitar a carga pesada que da expressão “palhaço-mendigo”).

O episódio, é claro, não é totalmente isento de humor, pois até em Zorra total corremos o risco de rir de algo em algum momento (especialmente se você for sádico e gostar de ver gente tendo que submeter ao ridículo para ganhar seu dinheiro). A piada de abertura, com Jerry comentando no show de stand-up sobre o quão imbecil é mostrar o dedo médio para ofender alguém, é muito boa. Mas só o fato de o melhor gracejo acontecer fora da historinha já é indício de que o episódio não é grande coisa. The robbery é fraco não só na comparação com o que virá nas próximas temporadas, mas também com os dois primeiros episódios.

E por falar em coisas que ainda virão na série, neste início de vida, Seinfeld ainda não é aquela produção que se destaca pelo politicamente incorreto. Foi graças a Seinfeld que muita gente tomou coragem para falar, digamos, em crianças retardadas, chamar artistas de rua de palhaços-mendigos ou zombar dos comediantes que ainda precisam trabalhar no Zorra total. As primeiras histórias da série ainda estão longe de contribuir para o combate ao politicamente correto. Mas o curioso é, que visto hoje, The robbery, que foi ao ar em junho de 1990, tem ingredientes que fariam chocar a audiência de hoje: ficamos sabendo que Jerry deixa a água da torneira de sua banheira escorrer pelo ralo durante longos minutos até que fique quente, que seu ar-condicionado tem um defeito que impede que seja desligado há anos, e que o sujeito joga fora sobras de comida, para não poluir sua geladeira. Uma série hoje, na era da preocupação ecológica, com um personagem cometendo esses delitos, seria logo apontada como politicamente incorreta.

Um último comentário cabe ainda nesta resenha. No finalzinho, quando Elaine vê uma gostosona que mora ao lado do apartamento pretendido por Jerry, reparem que ela olha para os próprios peitos e se considera esteticamente inferior. Nessas horas me bate uma vontade de falar “Elaine, sua tola. Você é gatinha, sim. Não inveja as outras. Tem muita gente que pensa como eu. Nós valemos uma esponja anticoncepcional!”. Aliás, eu diria que a personagem de Tina Fey em 30 Rock também sofre da “Síndrome de Elaine”.

Curiosidade sobre o episódio

Como lembra o livro Seinfeld – Tudo sobre a série, de Wolfgrand Paes, Jerry fala que Elaine deve ir para a banheira se quiser fazer sexo em seu apartamento. No episódio The English patient, de 1997, Elaine diz a Jerry que sexo na banheira não funciona.