Então se alguém deixa alguma coisa aqui, é só você pegar? Você tem licença pra roubar? Você é o James Bond da lavanderia?

Esse episódio é aquele em que o George Costanza joga o emprego na cara do chefe, diz tudo o que pensa dele e cai fora, mas depois se dá conta que não tem talento para fazer mais nada e decide voltar no dia seguinte como se a coisa não tivesse acontecido.

Isso aconteceu de verdade com o autor Larry David, assim como outras coisas que incluiu na série (geralmente na rotina do Costanza), como ter trabalhado para um vendedor de sutiãs que o obrigou a levar vários deles para casa com a missão de estudá-los (?).

Na vida real, revoltado por trabalhar anos na equipe de redatores do Saturday Night Live e só ter conseguido emplacar um esquete, Larry aloprou seu chefes e deixou os escritórios da NBC para só então se dar conta da merda que tinha feito – e voltar à emissora para fingir que seu pedido de demissão tinha sido apenas um desabafo.

Quando The revenge foi ao ar ainda faltavam dez episódios para The library (aquele com um detetive de bilbioteca que localiza livros não-devolvidos chamado Bookman), o Sgt. Peppers da série, onde os escritores perceberam que podiam brincar com muito mais do que duas ou três histórias paralelas e que graças aos poderes da escaleta, fazer várias subtramas se juntarem no final.

Aqui temos apenas duas histórias principais e uma subtrama Krameriana clássica: Newman – estréia do personagem, que não aparece e só tem falas; sua voz é dublada pelo próprio Larry David – quer se matar e Kramer o estimula a fazer isso (“pelo menos eu o respeitaria por conseguir realizar algo”).

As histórias principais são as tentativas de vingança de George contra o ex-chefe e do Seinfeld contra um dono de lavanderia que acredita ter roubado U$1500 que esqueceu no bolso de uma calça. Essa é mais bobinha, com o Michael Richards finalmente dando vazão ao seu humor clownesco na cena em que tenta encher de cimento uma das máquinas.

Fica uma coisa meio vaudeville fora de lugar, mas é nesse segmento que aparece uma das minhas piadas favoritas. É quando Jerry comenta que o aviso na parede que diz “bens perdidos são de responsabilidade do cliente” faz do dono da lavanderia uma espécie de James Bond da Laundromat. “Então é só você botar um cartaz e se alguém esquece algo aqui você pode simplesmente pegar? Você tem uma licença para roubar?”.

Isso sempre fez a diferença na série, esse tipo de observação. As “conversas sobre nada” não serviam simplesmente para apontar coisas que o espectador já sabe e atrair empatia (Costanza vive mesmo diminuindo esse tipo de humor para Jerry: “aquela sua rotina de ‘você já reparou que…’”), mas para associar uma determinada idéia dominante a um outro dado e fazer a simples observação virar uma obra de engenho.

(Outro exemplo é aquele segmento de stand up em que Jerry fala sobre como pesquisas demonstram que o medo dos americanos de falar em público é maior do que o da morte: “Isso quer dizer que em um enterro, você preferiria estar no caixão do que fazendo a eulogia”.)

Na outra ponta da trama George vai a uma festa de confraternização da firma e tenta fazer o ex-chefe tomar um drink batizado (com a ajuda de Elaine) para ridiculariza-lo. É a piada recorrente de George tentando fazer uma proeza cinematográfica (esconder um gravador em uma sala de reunião, roubar a fita da secretária eletrônica de uma namorada) sem o menor jeito pra coisa.

Jerry recupera o dinheiro (estava nas roupas de Kramer) mas tem que gastá-lo no conserto da máquina de lavar, e o chefe de George devolve seu emprego mas faz uma piada desabonadora sobre Costanza e ele não consegue se segurar novamente. O episódio termina com George considerando outros empregos, como cavalariço e ajudante de hotel. E Kramer termina gritando para o terraço, de onde Newman ameaça pular, se ele quer jogar sinuca. Resposta: “Não posso, vou ao cinema”.