O que me incomoda mais é a mentira.

No episódio The Pitch, George apresenta pela primeira vez a descrição que mais distinguiu Seinfeld: a de uma série sobre nada. Ele fala da série que Jerry e ele apresentarão à NBC, mas como a semelhança entre essa série fictícia e Seinfeld é muito evidente, entendeu-se que esse epíteto era adequado também para a série real. Na década seguinte, Jerry Seinfeld disse que essa ideia era absurda, claro, e que Seinfeld era na verdade sobre coisas pequenas do dia-a-dia.

Para manifestar o mérito da série em tratar dessas miudezas, é preciso especificar o método aplicado com essa finalidade. Por comparação, considerem piadas com “gente que”, comuns por exemplo no Twitter. São produto da observação de uma miudeza, que quanto menos reconhecida e mais reconhecível mais engraçada é. Esses mesmos produtos de observação são apresentados em outras fórmulas, mas mais ou menos no mesmo nível de desenvolvimento. Na televisão, esse tipo de humor já existia antes de Seinfeld e continua existindo, mas mais em segundo plano, incorporado a um figurino, como um trejeito menor de um personagem, e raramente como um tipo de tema frequente.

Em The Raincoats, Seinfeld transforma a ideia de gente que fala perto demais em um personagem: Aaron. O personagem se torna o símbolo desse tipo de gente e ganha um apelido: Close-Talker. Esse apelido é também um nome comum, e com ele pode-se passar a apontar para esse comportamento por meio de uma expressão curta, ao invés de usar uma descrição como a que Jerry usa no stand-up do início do episódio. O método supremo de Seinfeld em tratar de miudezas é apresentar descrições para depois transformá-las em nomes. Assim, passa-se de “gente que fala muito de perto em qualquer ocasião e invade seu espaço” para “close-talker”; de “gente que usa um presente que ganhou para presentear outra pessoa” para “regifter”; de “o ato de mergulhar a torrada no patê, morder um pedaço e voltar a mergulhá-la, permitindo o contato indireto da própria boca com o patê” para “double-dip”.

Há recursos na língua inglesa que tornam natural essa operação, e Seinfeld fez uso desses recursos em seu método para lidar com miudezas, mas o mérito não se resume a isso. O fato de que Aaron se aproxima demais dos pais de Seinfeld também figuradamente, de que ele tem alguma personalidade e piadas próprias desenvolve a miudeza e a coloca no centro do episódio, ainda que essa história seja menor que a história das capas.

Eu mesmo fiquei mais contente quando descobri que o episódio que eu comentaria, The Raincoats, era o episódio que eu lembrava como The Close-Talker.