Nós não compreendemos a morte, e a prova disso é que damos um travesseiro ao cadáver.

Uma das qualidades cômicas de Seinfeld e algo que torna o show verdadeiramente especial é a sua habilidade de transformar o trivial em extraordinário, seja ele o macarrão fusilli ou uma camisa bufante. No entanto, em alguns episódios extremamente originais, o roteiro consegue fazer de um grande tema algo corriqueiro – e The Pony Remark é um deles.

Jerry e Elaine (talvez em seu primeiro episódio de peso) vão jantar para comemorar o aniversário de casamento de uma parente distante dos Seinfelds (onde somos somos apresentados a um dos personagens mais divertidamente irritantes da série, Tio Leo). Quando Jerry diz, naquele seu típico estilo ‘piada sobre o nada’ que odeia pôneis e todos aqueles que já tiveram um, acaba criando uma tremenda saia-justa, já que a homenageada da festa tinha um pônei quando era criança na Polônia. Nesse momento, Jerry faz um discurso hilário pra se explicar, criando a primeira frase na história da série que merece citação: “Quem imaginaria que um imigrante teria um pônei?”

Se até aqui temos o típico artifício seinfeldiano de ‘tornar algo irrelevante escandaloso”, vamos ver algo importante tratado de forma comum quando a velhinha do pônei morre. Para aqueles que gostam de analisar Seinfeld como representação do vazio cotidiano (até mesmo comparando com o Teatro do Absurdo) é um prato cheio, já que teremos duas grandes cenas em que George (que curiosamente aparece pouco), Elaine e Jerry discutem morte, reencarnação e culpa – tudo de forma hilária, é claro. O que merece destaque é que, numa dessas delícias de incorreção política que posteriormente seria a marca registrada da série, Jerry não se sente nem um pouco culpado por talvez ter sido responsável por matar a velhinha de desgosto. Ele só quer saber de sua partida de softball.

No mais, pequenos detalhes chamam a atenção do fã mais atento da série, como Kramer começando a mostrar seus tiques e Jerry atendendo o telefone de má vontade. Também gosto da primeira cena do episódio, em que os pais de Jerry parecem, mesmo que por alguns minutos, serem os protagonistas de alguma outra série narrando o dia-a-dia de um casal idoso visitando o filho em Nova York.

Um dos primeiros episódios da série (talvez o primeiro) que consegue ser bem engraçado começando a usar elementos que depois se tornariam característicos. Além do mais, você nunca mais vai ver um pônei da mesma maneira.