Você sabe que mensagem você está passando para o mundo quando usa calça de moletom? Você está dizendo ao mundo: ‘Eu desisti. Não consigo viver em sociedade. Eu sou um infeliz, então pelo menos quero me sentir confortável’.

O título desse episódio duplo de fim de temporada dizia tudo. Ou melhor, dizia tudo pra quem vinha acompanhando a série, claro. “The pilot” é o episódio em que é mostrado o piloto da sitcom que Jerry e George escreveram. Vemos como finalmente a NBC dá sinal verde pra gravação do piloto e como são escolhidos os atores que vão interpretar os amigos de Seinfeld, fechando a ideia apresentada no terceiro episódio desta que foi a quarta temporada.

Esse episódio, pra mim, é muito positivo por dois motivos. Vamos ao primeiro, com que muita gente deve concordar. The pilot é bom porque está cheio de piadas boas, referências a episódios anteriores (com direito a participação especiais) e tem um trama que se completa daquele jeito classicamente seinfeldiano, ou seja, com as tramas se encontrando no fim. É muito legal ver que o fator que vai derrubar o programa de Seinfeld é totalmente relacionado à subtrama protagonizada por Elaine. É o desprezo dessa insensível mulher pelo amor do presidente da NBC que vai fazer naufragar o sonho de Jerry e George. É sempre maneiro ver funcionando essa característica dos roteiros da série.

É neste episódio também que há uma famosa observação de Seinfeld sobre as pessoas que usam moleton em seu dia-a-dia. “Você sabe que mensagem você está passando para o mundo quando usa calça de moleton? Você está dizendo ao mundo: ‘Eu desisti. Não consigo viver em sociedade. Eu sou um infeliz, então pelo menos quero me sentir confortável’”. Uma das pérolas da série, sem dúvida. Também são divertidíssimas as cenas com os atores se candidatando ao papéis de Elaine, George e, principalmente, Kramer. O ponto alto é quando nosso Cosmo aparece pra tentar interpretar a si mesmo. E quando as gravações acontecem, Seinfeld mostra bom humor ao confessar que é péssimo ator, uma crítica que ele realmente recebia na época.

Bom, por todos esses ingredientes, o episódio duplo já valeria. Mas pra mim, teve um gosto extra: acabar com essa palhaçada de metalinguagem. Eu não curti essa coisa de uma série que mostra um personagem tentando fazer com que uma série exista. Acho um recurso já desgastado. E me irritava mais ainda pela incoerência que era ter George como um dos criadores do tal seriado. Na vida real, a série Seinfeld foi criada por dois gênios do humor, o próprio Jerry Seinfeld e Larry David, que depois viria a ganhar seu próprio programa, o Curb your Enthusiasm. Mas como é que um perdedor como George, que nunca fez nada de humor na vida, seria o criador de um sitcom? Por que Jerry dividiria com ele sua própria série? Eu sei, eu sei que George Costanza é baseado em Larry David. Mas o mal-humorado Larry já ganhava a vida escrevendo humor quando se juntou a Seinfeld para criar a série. E isso definitivamente não acontecia com George.

Talvez, daí tenha nascido minha implicância com esse arco. Não importa. Só sei que fiquei aliviado em não ver mais essa historinha nas outras temporadas. Bom, na verdade, não exatamente o fim da tal série dentro da série. O piloto que vimos aqui acaba sendo retomado no último e derradeiro episódio de Seinfeld. Mas isso é outro papo, que vamos abordar aqui no Movimento Seinfeld daqui a muitos meses. Não mude de canal.