Você não entende. Um estacionamento, eu nem passo perto. É como uma prostituta. Por que eu tenho que pagar se, eu me esforçar um pouco, posso conseguir de graça?

Seinfeld criou para si mesmo a alcunha de “um show sobre o nada” e diversos episódios são utilizados como “exemplos perfeitos” desta filosofia. Talvez o maior deles seja The Chinese Restaurant, da segunda temporada, onde os personagens passam o episódio inteiro à espera de uma mesa em um restaurante e acabam não conseguindo. The Parking Space é um daqueles “pequenos clássicos”, mas dificilmente é o episódio escolhido para definir Seinfeld, mesmo contendo muitos dos elementos brutos que formaram a série. Neste, o plot se concentra em uma guerra entre George e Mike (um amigo de Jerry) por uma vaga de estacionamento em frente ao prédio onde Jerry reside. Isto por si só já é um caso típico da estratégia da série de inflar as situações do cotidiano de um cidadão comum e mostrar o quão banais elas podem se tornar.

Logo no início do episódio, já temos um típico caso seinfeldiano – Kramer adentra o apartamento de Jerry (obviamente, como se fosse o seu) dizendo que acha que o carro de Jerry fora roubado. Isto não foi o que aconteceu, mas Jerry reluta em dizer a verdade a Kramer e o faz implorar para que ele a contasse. Na verdade, Jerry havia emprestado o carro para que George e Elaine pudessem ir a uma feira livre, fora da cidade. A típica ironia da série já se apresenta quando, logo em seguida, é Jerry quem se vê obrigado a implorar para que Kramer contasse o que o amigo deles, Mike, havia dito de mal sobre Jerry. Descobrimos então, que Mike havia dito que Jerry era “falso”. Ao passo que o mesmo Mike iria se juntar a George e Kramer na casa de Jerry para assistir à luta de boxe, logo mais a noite. A recorrente paranóia de Kramer também vem à tona quando ele começa a achar que George e Elaine não gostam dele, pois não o convidaram para o passeio.

Em paralelo, vemos George e Elaine voltando de viagem, no carro de Jerry. Logo que a câmera corta para esta cena, nos deparamos com George usando um chapéu à moda Indiana Jones. Melhor ainda é quando o maior trauma de Larry David, a calvície, é por mais uma vez retratado em George. Conversando com Elaine, ele diz que nunca iria a um encontro de chapéu, pois quando ele o tivesse que tirar, seria uma grande decepção para a sua parceira descobrir que ele é calvo. Um fato curioso sobre essa cena é que Larry David confirmou a tese em seu seriado, Curb Your Enthusiasm, no episódio Denise Handicapped, onde, no segundo encontro, uma parceira diz a ele que se decepcionou, pois não acreditava que ele fosse calvo, uma vez que, quando se conheceram, ele estava usando um chapéu.

Voltando ao que interessa, na viagem de volta, George se distrai e acaba passando por um buraco, criando um ruído no carro de Jerry. Ele e Elaine ficam preocupados em como iriam contar isso a Jerry. Ao chegar ao local onde Jerry reside, George discute com Elaine que não quer parar o carro em um estacionamento, pois estacionamentos são como as prostitutas, não vale a pena pagar pelo que se pode conseguir de graça. Então, eis que Elaine encontra a vaga de espaço dos sonhos. E aí, surge mais um detalhe bem peculiar na série, que é George perder tempo com o que ninguém se interessa e prejudicar-se com isso. Ao ver a perfeição da vaga, ele passa a divagar sobre ela, sua geometria, sua beleza. E, quando resolve estacionar, de ré, um outro carro “embica” de frente e ambos acabam colocando metade de seus carros dentro da vaga. George, revoltado, diz que prefere ficar até a morte esperando que o outro motorista (que descobrimos ser Mike, que chamou Jerry de “falso”) retire seu carro para que ele possa estacionar devidamente. A guerra de nervos se inicia e perdura durante todo o dia.

Nesse meio tempo, Elaine ainda tenta convencer Jerry, com uma história das mais insólitas, de que o ruído em seu carro foi causado por uma perseguição que ela e George sofreram de um carro “envenenado” com uma gangue armada. Esse é um outro exemplo notório da mitologia de Seinfeld. Em muitos episódios, os quatro protagonistas, mesmo sendo melhores amigos, não perdem a oportunidade de “passar a perna” um no outro.

Outra sacada legal do episódio é explorar a tolice do ambiente externo ao dos protagonistas, já que alguns pedestres e pára-quedistas acabam tecendo seus comentários sobre a vaga de estacionamento e, muitas vezes, algumas discussões improváveis e hilárias surgem, como a de um garoto com um idoso e entre dois policiais que, a princípio, deveriam apartar a briga. Este garoto, aliás, também estabelece um outro ponto recorrente na série, que é deixar claro que, por mais que Jerry possa parecer o único lúcido do grupo em alguns momentos, não deixa de cometer os seus deslizes. Isso acontece quando Jerry pergunta para ele se seu pai estava mesmo fechando o seu negócio. O garoto ainda não sabia desse detalhe e questiona sua mãe sobre isso, deixando Jerry constrangido.

Este foi o único episódio que Greg Daniels escreveu para a série e você com certeza já o viu creditado como um dos criadores da versão americana de The Office. Larry David disse que a situação da briga pela vaga de estacionamento foi baseada em um fato muito parecido pelo qual o pai de Greg Daniels passou. Larry, aliás, também assinou o roteiro e, a partir do momento em que o conflito principal se estabelece, é interessante ver como ele dá voltas e voltas, mas não chega a nenhuma conclusão. Entretanto, é interessante observar como, a partir desta situação, todos os outros conflitos menores são resolvidos. Jerry consegue provar que o “falso” é na verdade Mike, descobre que o ruído em seu carro foi na verdade causado por George passar acidentalmente sobre um buraco e Kramer tira a limpo a falta de consideração de George e Elaine por não o terem convidado à feira. Entretanto, a solução para o caso principal não existe e a ironia final é vermos Jerry voltando ao seu apartamento enquanto a disputa pela vaga ainda acontece e, ao ligar a TV para assistir à luta de boxe, se deparar com a contagem para o nocaute já sendo proferida pelo árbitro. Nos resta então presenciar a decepção de Jerry por ter perdido o que queria realmente fazer para acompanhar uma banalidade tremenda.

Portanto, todos esses elementos fazem desse episódio, se não um dos mais célebres da história de Seinfeld, um dos mais ricos em informação para quem quer entender esse mundo onde, teoricamente, nada acontece.