Eu assumi, e eu nem sou gay! / Agora todos vão achar que nós somos gays! / Não que tenha algo de errado quanto a isso…

The Outing é um dos mais sensacionais episódios de Seinfeld. Vocês já repararam que eu só resenho episódios sensacionais? Talvez seja porque sou sensacional também. Não que tenha algo de errado quanto a isso…

O episódio se desenrola, essencialmente, a partir dos acontecimentos dos seus três minutos iniciais. O pessoal tá reunido no Monk’s e enquanto Jerry fala ao telefone com um jornal (NYU) acerca do seu encontro com a Sharon, jornalista que iria entrevistá-lo, Elaine e George conversam sobre a sua namorada maluca que queria se suicidar caso George acabasse o namoro. Coincidentemente, quando Elaine e George mudam de assunto, a jornalista adentra o Monk’s.

Os detalhes e o timing perfeito, em Seinfeld, mais uma vez fazem toda a diferença. Quando começam a falar sobre o presente que dariam a Jerry, o diálogo começa a adquirir uma sutil conotação homossexual. George comprou dois ingressos para Guys and Dolls (um musical) e faz questão de acompanhar o Jerry enquanto Elaine comprou um telefone de duas linhas. Qual é o presente mais gay? Não que tenha algo de errado com isso…

Tal conotação homossexual vai se confirmando à medida em que Jerry volta à mesa trajando uma inédita camisa de gola rolê, num azul meio arroxeado. Quando Jerry senta (detalhe, exatamente na “cabine” que o George está) – e aqui a repórter do NYU já estava sentada na cabine contígua – o assunto desenrola para beleza. É o momento em que Elaine percebe que a Sharon está escutando a conversa e aproveita aquele seu seu senso de humor para piadinhas práticas que bem conhecemos em The Tape. “E daí que vocês são homossexuais? Vocês deveriam sair do armário e assumir que são gays…”, pergunta Elaine em voz alta. Jerry fica contrariado e George emenda com “o que você me diz? Você sabe que é o único que já amei”. É a deixa para que a repórter entre em contato com o NYU. E isso acontece no exato momento em que Jerry e George vão ao banheiro juntos. Olha o timing.

A cena seguinte se desenrola no apartamento do Jerry. E aqui o roteiro do Larry Charles se confirma como um dos mais geniais do seriado: no momento em que a repórter entra no apartamento para entrevistar Jerry, ele e George começam a agir como um casal. E só conseguem perceber que a repórter está pensando aquilo quando Jerry a reconhece do Monk’s. Desesperadamente, os dois tentam esclarecer que aquilo foi um mal entendido. “Foi de propósito! Nós não somos gays…”, diz Jerry. E arremata com a grande frase do episódio: “não que tenha algo de errado quanto a isso…”.

A grande sacada e o humor do The Outing estão na constante tensão entre não querer ser ou sequer parecer gay e tentar fazer acreditar que se está tranquilo quanto a esta possibilidade. O que é, claro, bastante contraditório. O desespero do Jerry e do George, sempre compensados com a frase “não que tenha algo de errado quanto a isso…” é o maior indicativo deste arroubo politicamente correto pós-homofobia. George afirma desesperadamente que não é gay e até chama a repórter para fazer sexo com ele para que possa provar isso. Mas para levá-la a crer que não é preconceituoso, afirma desesperadamente que Frank Costanza é homossexual (imaginem só).

Kramer, é claro, não poderia deixar de participar de forma marcante no episódio. Depois de toda a confusão, ele presenteia Jerry com um telefone de duas linhas defeituoso. Por conta deste telefone, a repórter da NYU (que estava em vias de não publicar a história sobre Jerry e George) escuta a conversa dos dois e acaba publicando. Kramer, aliás, o que geralmente age como doido, é o que leva tudo com mais naturalidade. E aí vocês podem imaginar as consequências disso tudo para os Seinfelds e os Costanzas.

The Outing é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes episódios de Seinfeld (acho que todo mundo fala isso a cada episódio resenhado, não tenho culpa se a série é pure awesomness). E após essa longa resenha sobre este episódio vocês vão ficar achando que sou viado. Tenho até um amigo gay, mas eu não sou! Not that there’s anything wrong with that…