Nunca tive tanta repulsa por alguém mentalmente e tanta atração física ao mesmo tempo. É como se meu cérebro estivesse enfrentando meu pênis em um jogo de xadrex. E estou deixando o pênis vencer.

Taí um episódio diferente de Seinfeld. Sabe-se lá por que, decidiram dar uma variada no formato e inserir umas imagens em flashback. Por exemplo, quando Costanza fala com Jerry sobre o nariz de sua nova namorada (que dá nome ao episódio, “A cirurgia plástica reparadora no nariz”), aparecem na tela lembranças que o sujeito tem da moça, com um close nasal bergeraquiano. E quando Jerry se gaba de como conquistou um mulherão no elevador, também aparece para o telespectador a cena em que ele manda a cantada na tal boazuda. Outro recurso inusitado é a encenação do jogo de xadrez que se passa na mente de Jerry, na qual seu pênis tenta vencer seu cérebro (com o ator caracterizado como as duas partes de seu corpo).

É claro que esses detalhes não são a melhor coisa do episódio. São apenas curiosidades ressaltadas por um fã que gosta de mostrar como consegue identificar nuances nesse ou naquele capítulo. O que há de melhor neste episódio é Kramer. Nosso caro Cosmo rouba a cena duas vezes. Na primeira, por simplesmente ser o personagem que é: em um determinado momento, é o único a falar que a namorada do Costanza precisa fazer algo em relação à nareba. Sua ação é desconcertante e hilária. É um perfeito exemplo de como uma frase simples e sincera consegue deixar todo mundo em verdadeiro pânico, jogando todos em uma areia-movediça social, quando o melhor a ser feito talvez seja ficar quieto, sem mexer um músculo, para não afundar na situação constrangedora. É também mais um ponto a favor para aqueles que acham que os personagens da série não são maus, são apenas extremamente sinceros, como não se deve ser entre humanos.

Na segunda vez em que Kramer se destaca, parte do crédito cabe a seu intérprete, Michael Richards, aquele que não pode mais passear no Bronx. O comediante manda bem na cena em que trata Jerry como um drogado, devolvendo ao amigo desesperado o número do telefone da mulher que ele vinha pegando. Seu talento como ator vem à tona enquanto vocifera, chegando a causar um contraste entre sua forma de representar e a do dono da série, que, como sabemos, deixa muito a desejar na interpretação (tudo bem, os outros talentos de Seinfeld lhe dão o direito de ser um ator ruim).

Acabei falando duas vezes sobre o lance de Jerry estar com uma namorada “além de sua liga esportiva”, ou melhor, adaptando pra nossa realidade: “muita areia para seu caminhãozinho”. Curioso é que na vida real, a atriz Tawny Kitaen, que faz a tal gostosuda, se envolveu por um tempo com Seinfeld. Mas essas fofocas não importam aqui. Na trama, ele quer largar a moça, já que ela é burra e chata, mas não consegue, já que o sexo com ela é do bom. É interessante ver como depois de Seinfeld fica difícil ser original em algumas comédias de situação. Esse mesmo mote, da luta contra o desejo de ficar com a burra boa de cama, foi abordado na ótima série Family guy, no episódio em que Brian (o cão que fala e age como humano) arruma uma namorada exatamente assim: uma porta, mas com uma fechadura tão eficiente que fica difícil tirar a chave de dentro. O dilema de Brian, criado cerca de 10 anos depois de The nose job, é muito similar ao de Seinfeld. Cópia? Plágio? Sinceramente, acho que não. Não nesse caso. É que o mundo do humor de hoje não tem culpa de Seinfeld ter surgido alguns anos antes.