Nós precisamos fazer sexo pra salvar a amizade.

Um rapaz dizia frequentemente que queria se matar, mas que sempre acabava desistindo. Quando perguntavam a ele por que escolhia continuar vivendo afinal, a resposta era a mesma: “eu não suporto a ideia de ser esquecido pelas pessoas depois de morrer”. Um exemplo mórbido, mas que não é tão difícil assim de compreender. Não é difícil, por exemplo, me pegar pensando em relacionamentos passados e, como bom neurótico que sou – quem de nós não é um pouco George Costanza? – fico relembrando as situações patéticas que contribuíram para que essas relações se tornassem passado: a verdura entre os dentes no jantar em que eu a pedi em casamento me faz pensar que se não tivesse pedido uma salada como entrada, já poderia estar me divorciando agora. Outra situação, com outra garota, me faz pensar que chamar um táxi para levá-la ao motel no segundo encontro não é uma ideia tão boa, e que ter um carro costuma ser uma solução melhor.

Mas uma certeza que eu sempre tive, e que compartilho com Kramer, é a de que quando a hora chega, eu sei apertar os botões certos, sempre soube. Não ligo muito se elas me acham um idiota arrogante ou um infame que não sabe escolher o momento para fazer piadas ruins, mas fico aterrorizado quando imagino que posso não ter dado a cada uma delas o prazer fenomenal e inesquecível que imagino ter oferecido. Afinal, compartilho com o rapaz do primeiro parágrafo o desejo de não ser esquecido, e não há maneira melhor de ser lembrado do que demonstrando habilidade na hora de apalpar os melões e de sentir a textura do abacate para saber se está no ponto, sem falar do quanto é importante perceber se a manga está suculenta antes de mordê-la.

Em minha fantasia, é bem possível que ela nem saiba qual minha profissão, para que time torço ou o nome de minhã mãe, mas se nos encontrarmos entre as prateleiras cheias de frutas da quitanda, ela vai sorrir marotamente lembrando-se da explosão de sabores que era a plantain que ela provou comigo e nunca mais teve igual, e é absurdo pensar que algum outro homem pode ter demonstrado mais conhecimentos hortifrutigranjeiros que eu, isso seria impossível!

Mas, não é incomum que, para elas, nós sejamos tão saborosos quanto um pêssego que acabou de ser resgatado de uma enchente no CEASA, e aí entra em cena a piedade cruel que só as mulheres sabem ter: o gosto da nossa fruta nem de longe é equiparável ao prazer que elas sentem depois do risoto, e quando isso acontece elas podem simplesmente fingir: um incentivo que alimenta nossa crença de sermos amantes inesquecíveis e que nos impulsiona a continuar plantando e colhendo.

É bom que seja assim. Nem sempre precisamos saber da verdade ou conhecer a realidade. De fato, para não corrermos riscos e para que não morra nossa esperança de realizar grandes colheitas, bom mesmo seria namorar a Meryl Streep.