Ficar com a chave do apartamento do Jerry me deixou no mundo da fantasia. Pareciam férias na casa dele: comida melhor, vista melhor, TV melhor. E muito mais limpo. Virou a minha realidade. Ignorei a minha imundície porque eu enxergava a vida através do Jerry.

Em The Keys Kramer está inebriado com o poder: ele tem as chaves do apartamento de Jerry e não consegue parar de invadi-lo, aproveitando a ausência do amigo. Isso gera três situações constrangedoras. Primeiro, Seinfeld acorda de madrugada e se depara com Cosmo assaltando sua geladeira. Depois, Seinfeld chega em casa apertado para ir ao banheiro e encontra Cosmo tomando banho de banheira (meudeus). Por último – e a gota d’água – Seinfeld chega em casa com uma namorada e encontra na sala Cosmo com uma mulher. Finalmente, Jerry resolve pedir as chaves de volta, deixando Kramer bastante ofendido.

A ofensa de Kramer com o pedido de Jerry faz todo sentido. Dizer para alguém que ele precisa devolver as chaves da sua casa significa, basicamente, “não confio mais em você”. E a mágoa de Kramer gera uma cena inimaginável: Cosmo bate na porta de Jerry antes de entrar, em vez de fazer a tão corriqueira entrada triunfal. E, pior, espera Jerry abrir. As caras de choque e susto de Elaine e de Jerry ao abrirem a porta e se depararem com um Cosmo comportado (na medida do possível) são impagáveis.

Pra mim é bem óbvio que um vizinho que está sempre na sua casa roubando comida não pode ser o guardião das chaves reservas. Mas eu sou gorda, né. E mal acostumada. A pessoa que tem as chaves da minha casa – minha sogra – coloca comida dentro da minha geladeira. Já cansei de chegar em casa e encontrar refeições completas, devidamente embaladas em tupperware. E, melhor, normalmente essas refeições são as minhas comidas preferidas e não as do meu marido. Melhor do que isso não dá pra ficar.

Eu não tenho as chaves de ninguém, por um motivo bem simples: sei que vou perdê-las mais cedo ou mais tarde. Já tenho bastante aporrinhação tentando não perder as chaves da minha casa (desde que casei tenho tido sucesso: nenhuma chave perdida em quatro anos e meio, um recorde pessoal). Se eu tivesse de me preocupar com as chaves alheias ficaria completamente paranóica. Não daria certo.

Sem contar que existiria outro problema, que este episódio retrata muito bem: se eu tiver as chaves da casa de alguém, vou ter de dar as minhas chaves para ele? Quando Kramer devolve as chaves para Jerry, se sente na obrigação de pedir suas chaves de volta. E, a partir daí, acontece um verdadeiro rodízio – pra lá de confuso – de chaves. Kramer entrega seu molho de chaves (gigantesco) para George, que precisa pegar as chaves dele com Elaine para entregá-las para Kramer. Elaine já está com as chaves de Jerry e precisa pegar suas próprias chaves de volta com George para entregá-las para Seinfeld.

A mágoa de Kramer é a desculpa que os roteiristas usam para o personagem viajar para Los Angeles para tentar a carreira de ator. As aventuras de Cosmo na Califórnia perduram por outros dois episódios (The Trip I e II). Kramer consegue um papel na série Murphy Brown, que realmente existiu de 1988 até 1998, na CBS. No final de The Keys, aparece uma pequena cena do Michael Richards contracenando com a Candice Bergen, que era a protagonista título da série.

Duas curiosidades sobre The Keys: na cena em que Kramer patina em um calçadão em Venice, os joelhos do Michael Richards estão completamente ralados. E a Julie-Louis Dreyfus aparece durante todo o episódio utilizando todo o tipo de apetrecho para esconder a barriga. Ela estava grávida de seu primeiro filho e teve o bebê logo depois das filmagens do episódio.