Deficientes não querem vagas especiais, eles querem ser tratados como nós. Por isso as vagas estão sempre vazias.

The Handicap Spot é mais um dos episódios medíocres de uma série repleta de episódios medíocres (no sentido mais concreto e literal). É a essência de Seinfeld: apropriar-se de tudo o que é vil no ser humano e transformar em humor corriqueiro.

Costuma-se dizer que Seinfeld é uma série atemporal se pensarmos na ausência de cliffhangers, embora sua intertextualidade faça com que vários episódios precisem ser vistos para que uma compreensão mais ampla possa ocorrer. The Handicap Spot toma uma parte de The Parking Garage e consegue adaptá-la a outro contexto.

O stand-up de abertura fala sobre casamento, um dos temas abordados no episódio. O noivado de um amigo – O Drake – faz uma costura e perpassa vários assuntos, culminando no que acredito ser o assunto principal: a vaga para deficiente físicos e, obviamente, o que ela realmente significa para os personagens e para a sociedade.

George toma emprestado o carro de seu pai – que não é interpretado por Jerry Stiller neste episódio – e vai com os amigos a um shopping comprar o presente de noivado para O Drake. Imagino várias interpretações quando penso na vaga do estacionamento: a de um tempo passado coexistindo com o presente e remetendo ao famoso The Parking Garage; a de uma inversão de valores lançada por Kramer em direção a George com o objetivo da obtenção da vaga; à interpretação pobre e errônea de George ao falar brevemente sobre feminismo. Enfim, o recorte pode ser feito em qualquer um dos pontos que a ideia central da série é preservada. Efetivamente, o que ocorre é que George, sempre, sempre loser, resolve estacionar o carro na vaga de deficientes e obviamente causa problemas a si e a uma moça cadeirante que se acidentou pois não estacionou na vaga especial. Uma multidão se revolta e cerca o carro, esperando o dono aparecer. Os quatro fingem que não sabem de nada e esperam o tempo passar em outro lugar. Ao voltar… carro destruído. Problemas. Dos males, o menor: o presente de noivado foi comprado, mas creio que George pouco se importe.

Algum tempo passa, George explica a situação ao pai, Jerry e Elaine resolvem visitar O Drake e sua respectiva (vulgo Drakette) e Kramer, o virtuoso, volta do hospital após visitar a cadeirante acidentada. E volta apaixonado. George, na companhia compulsória de Kramer, vai a uma loja tentar comprar uma cadeira de rodas para a moça. Parece o mínimo que deve ser feito – mas o mínimo custa muito, principalmente para George.

Jerry e Elaine seguem com seus planos, visitam o casal, elogiam a televisão que eles mesmos compraram e, como bons egoístas, não percebem que havia algo errado. Algo muito errado: o casal se separou e mais um convite ao debate moral em Seinfeld é feito: todos se sentem injustiçados pelo transtorno pelo qual passaram ao comprar um presente a um amigo (gesto positivo da parte deles) que resolveu se separar (gesto negativo do amigo). A interpretação é fantástica: eles querem a televisão de volta. Lógica para principiantes. George, inclusive, se mostra feliz ao saber que se separaram: para ele, há o direito de pegar o presente de volta e alocar o dinheiro na compra da cadeira de rodas. Grande barganha.

Não é preciso dizer que o desfecho é drástico: uma cadeira precária é dada à moça, que se acidenta novamente; o pai de George vai preso por parar em uma vaga de deficientes; Drake, sentindo-se culpado, deu a TV à ex-noiva, que absurdamente (!) doou à caridade.

Definitivamente, não consigo ver um personagem que tenha saído no lucro dessa vez.