Eu adoro esse sofá. Sabe qual é a melhor parte? Ele não desdobra. Ninguém pode dormir aqui.

Existe aquela teoria de que Seinfeld não funcionaria nos dias atuais: muito das desventuras seriam facilmente solucionadas com a internet. A conta de twitter Modern Seinfeld prova que não, criando tramas extremamente possíveis que giram em torno do universo online. Uma das tramas desse episódio me lembrou diretamente isso. George foi obrigado pela namorada a entrar para um clube de leitura e ler Bonequinha de Luxo, do Truman Capote. Com preguiça, o nosso anti-herói calvo procrastina a leitura até o último segundo, até aceitar que realmente não vai ler e decidir alugar o filme baseado no livro. Em uma corrida contra o tempo pelas ruas de Nova Iorque, George passa em várias locadoras e não consegue o filme. A única VHS possível acabara de ser locada. Sem outra opção, George rouba o endereço do locatário e vai até a casa do estranho para assistir o episódio ao seu lado.

Lógico que essa exclusividade do filme não faria sentido hoje em dia, mas há um leque de desdobramentos possíveis ao adaptar essa cruzada do George Costanza para os dias de hoje: George poderia ver o filme no Netflix que, automaticamente, atualiza seu status do Facebook, entregando que ele está roubando no clube da leitura. “Eu não apertei em nada! Eu só assisti o filme! Agora eu nunca mais vou me sentir seguro em site pornô”, ele confessaria ao Jerry. Ou ainda: George dividia essa conta de Netflix com uma ex-namorada que trocou a senha de usuário, e George precisa ligar para ela para descobrir a nova palavra.

Insistindo nessa brincadeira de Seinfeld moderno, eventualmente leio blogs de design criativo, inovação, startups e essas frescuras apenas para imaginar como o Cosmo Kramer seria considerado um grande entrepeneur nos dias de hoje. Blogs ativistas o canonizando por aquela vez que ele decidiu pintar uma terceira mão na estrada por conta própria. O coffee table book sendo considerado um dos grandes livros do ano (“C. Kramer conseguiu driblar a febre de e-readers e lançou um livro que deve ser lido em seu formato original, sem versão digital”, diria o caderno cultural de algum jornal). Nesse episódio em especial ele propõe uma pizzaria onde você monta sua própria pizza, jogando a massa para o ar e tudo. Rapaz, que empreendedor.

O resto do episódio é atemporal: Jerry compra um sofá novo e Elaine se apaixona pelo carregador de móveis. Elaine é engajadíssima na questão do aborto e se recusa a comer a pizza de um estabelecimento cujo dono é contra aborto, afirmando para Jerry que não manteria um relacionamento cliente-restaurante com um local que não é pro-choice. Jerry usa isso para assombrar a vida de Elaine, perguntando qual a opinião do seu novo namorado sobre o direito da mulher sobre o próprio corpo. O novo namorado é contra aborto e o casal acaba. Enquanto isso, o sócio e financiador do Local Para Fazer Suas Próprias Pizzas urina no sofá novo do Jerry.

Não sei o quão saudável é isso, mas eu sempre me identifico com o George, nos seus atos e soluções para problemas. Nesse fim de episódio, George pega o sofá urinado para ele, afirmando que vai só virar a almofada e tá tudo bem. Eu faria o mesmo.