Jerry, estou dizendo, eu tenho esse poder. E eu não tenho controle sobre ele.

The Conversion começa com o nosso amigão Seinfeld mandando uma de suas famosas hipóteses sociológicas, no caso a de que em uma discussão onde uma das partes está sem calças, esta é a parte que irá perder a disputa. Isso só me faz pensar que Jerry Seinfeld é o tipo de cara que nunca tentou barganhar com um travesti da Rua Augusta. Enfim, voltando ao episódio: George está jantando com mais uma coitada que achou algo para gostar nele, mas os pais dela não aprovam o relacionamento com Costanza porque ele não é da mesma religião da família. Mesmo com uma charmosa fala, “você é a única mulher com quem nunca pensei sobre o preço (da comida)”, George não consegue vencer esta batalha e termina pagando pela lagosta – que ele achou cara – e leva o resto numa quentinha para o apartamento de Jerry.

Enquanto Elaine e Jerry estão discutindo se devem chamar o podólogo com quem ela está saindo de “doctor” (vale lembrar que essa discussão vai voltar quando Jerry sair com uma dermatologista num outro episódio) os dois chegam no Chateau Seinfeld, um enquadramento nunca antes visto do hall do 5o andar é usado para introduzir a peguete da vez e BOOM, dão de cara com George sofrendo pelo amor perdido.

Elaine então sugere que George vire membro da Igreja Ortodoxa da Letônia como um gesto de amor. Ele topa a ideia com um certo entusiasmo, porque, “o quão difícil pode ser?” A cena toda parece arriscada por mostrar o desdém que os personagens tem por toda essa história de religião, que eles tratam como se fosse mais um clube para se tornar sócio, mas acho que o episódio não causou auê porque o tom se encaixa perfeitamente em Seinfeld, esses personagens desdenham tudo, mesmo quando um deles gosta de alguma coisa, esse gosto é retratado como ridículo. Nesse momento a gente podia falar de como uma série de comédia influenciou toda essa geração hipster e sua cultura do “gostar ironicamente”, mas olha o tamanho desse texto já. E nem cheguei na metade do roteiro.

A história B é meio rasa se resume ao típico set-up que usa a neurose de um dos personagens para que eles fodam um relacionamento. Jerry acha um tubo de creme anti-fungos no banheiro da sua namoradinha, se assusta e foge com a desculpa de que tá se sentindo meio gripado. A viadagem não para aí e ele pede pra Elaine falar com o podólogo, talvez o doutor saiba para que esse fungicida seja usado. Segue-se a discussão de “ah, então AGORA ele é um doutor” que você já esperava e bora pro comercial.

Costanza bate um papo amigável com os padres, fala que quer se converter e gosta muito dos chapéus usados pelos clérigos, nisso Kramer chega à igreja para buscar o gordinho e conhece uma noviça que lhe dá um brinquedo, aparentemente uma técnica de flerte que a irmã Roberta aprendeu com os padres.

A perturbadora imagem da irmã Roberta dizendo para Kramer, “tenho outro brinquedo para você”, me assombrará até o fim dos meus dias e parece o tipo de coisa que Larry Charles teria escrito e espremido até a última gota de desconforto pingar na tela. O charme irresistível de Kramer é explicado pelos padres como ‘Kavorka’, a atração animal. Ele faz uma simpatia, toma banho de vinagre e tudo passa… Ou é só porque ele está fedido.

Surpreendentemente Jerry não é pego por roubar o fungicida e ainda descobre que o tal fungo está é no gato, não na sua gatinha, então tudo acaba bem para o lekstand-up. Já Elaine é que leva um fora do podólogo quando ele vê o creme no banheiro e sai fugido. A cena mostra que Jerry e o “doutor” seriam bons amigos, que na sociedade machista onde vivemos só as mulheres se ferram e que o meu roteiro ‘O Tubo de Pomada Amaldiçoado’ não é tão original assim.

George também não acaba lá muito bem, a conversão rola de boa, mas a menina se muda pra Látvia e parece não estar muito interessada nele.

Enfim, The Conversion é um episódio muito lembrado por sua premissa exagerada e pela palavra “kavorka”, mas não é na trama que ele se destaca e sim nos diálogos e pequenos detalhes, como a cena em que George está estudando para o teste de conversão no banheiro e seus pais acham que ele está se masturbando.

O que fica então é a indagação de Estelle Costanza, que se aplica não só a seu filho, mas a todos os protagonistas: “Why can’t you do anything like a normal person?

Seinfeld é isso aí.