George não trabalha. Ele é um mendigo.

Não importa qual seja o tema de um episódio de Seinfeld, da participação em um filme do Woody Allen ao nome da namorada que rima com uma parte do corpo feminino, a série sempre consegue falar de assuntos desconfortáveis com saborosa descontração. Este é o primeiro episódio de Seinfeld centrado em humor étnico - o outro é aquele em que George tenta provar que não é racista pro chefe negro, nem que pra isso tenha que arrumar um amigo de cor (!). Mais tarde a série seria acusada de racismo - reclamam negros, chineses, porto-riquenhos, indianos, etc… - mas as “ethnic jokes” não são exclusividade: The Office US brinca com o tema já no segundo episódio da primeira temporada (Diversity Day).

O ponto de partida é um presente, que Jerry faz questão de dar pra Elaine na frente de uma amiga dela, Winona, pela qual ele tem interesse. O que parecia um ótimo plano pra demonstrar o quanto Jerry é gentil e carinhoso, acaba dando errado: o presente é uma gigantesca estátua de índio de madeira, e Winona é descendente de índios. O mal estar aumenta quando Jerry balança a estátua pra frente e pra trás, gritando u-ga-ga, sem ter ideia do porquê Winona vai embora ofendida – uma cena hilária e memorável.

Ao tentar consertar as coisas, Jerry acaba mergulhando em situações ainda mais embaraçosas (como quando pergunta pro carteiro se ele conhece algum restaurante chinês pelas redondezas, ao que o carteiro, chinês, responde indignado: “Só porque eu sou chinês eu tenho que conhecer todos os restaurantes chineses da cidade?!”). Quando tudo parece bem entre Jerry e Winona, é engraçadíssimo vê-lo tentando evitar palavras que remetam à etnia dela (““Liguei pro restaurante e fiz uma reser…”). Claramente, namorar esta garota seria um programa de índio.

Além do tema indigesto, não é um episódio filmado exatamente em lugares agradáveis. As principais locações são i) a casa dos pais do George (“um pout-pourri de cheiro de mingau, caspa e tapete barato”); ii) duas charutarias, estabelecimentos naturalmente escuros, bregas e fedorentos; e iii) o metrô de nova york, não necessariamente mal cheiroso, mas absolutamente mal frequentado (é lá que assistimos a primeira aparição do TV geek, um tipo careca de óculos – não é parente do George – que se apaixona por Elaine).

Por fim, mais dois destaques cômicos do episódio: George faz sexo (isso é raro!) na cama dos pais enquanto eles estão viajando - e aos 34 anos, fica de castigo. E em outra história paralela, vemos o momento em que Kramer tem a idéia de fazer uma mesa de centro sobre mesas de centro e, naquelas situações que só acontecem com o Kramer, acaba o episódio fumando charuto com J. Peterman, chefe de Elaine na editora Peterman, que publicaria a ideia em The Fire.