Você é um homem mau! Muito, muito mau!

Em The Café, sétimo episódio da terceira temporada, Seinfeld está obcecado com um restaurante da vizinhança que abrira recentemente e que não tem clientela. Elaine dá a idéia dele visitar o estabelecimento e assim incentivar o movimento. Enquanto isso, George precisa fazer um teste de QI a pedido de sua namorada e Kramer foge do ex-namorado da sua mãe porque não quer devolver o sobretudo dele.

O dono do restaurante é o paquistanês Babu, um dos personagens esporádicos mais populares. Seinfeld tenta agradá-lo e pensa consigo mesmo como ele é uma boa pessoa, o único morador do bairro a realmente se preocupar com o sucesso do negócio do imigrante Babu.

Sempre achei que o real motivo do interesse de ajudar Babu tenha sido uma certa camaradagem entre perdedores. Aliás, acho que a base da amizade entre Seinfeld, Elaine, George e Kramer vem desse mesmo sentimento. De certo, penso assim porque loser que sou, também gostaria de ajudar Babu, mas por achar que se tivesse um restaurante ele iria ter a mesma sorte do “The Dream Café”.

Seinfeld dá a dica de Babu trocar o menu, que serve todo tipo de comida ocidental, para um menu tradicional paquistanês. Babu pega um empréstimo e fecha o estabelecimento para reforma e quando reabre nada muda, como é de se esperar.

No outro fio da história, Elaine topa fazer o teste de QI por George, ele se tranca num quarto e passa o teste à ela pela janela da casa da namorada e ela vai fazê-lo no restaurante de Babu, o lugar mais silencioso por ali. Nisso chega Kramer e faz com que o rigatoni de Elaine acabe em cima do teste. George consegue convencer a namorada que ele pulou a janela para fazer o teste num café e o manchou ele mesmo. O esforço dá em nada, o teste dá 81 pontos. Elaine insiste em fazê-lo outra vez, dessa vez no apartamento de Seinfeld. Ela termina a tempo e se sai melhor, mas Kramer a tranca lá quando o dono do sobretudo corre atrás dele. Ela chega muito depois para devolver o teste preenchido e a namorada de George descobre o trambique.

Para mim, Seinfeld sempre foi uma série sobre neuroses para neuróticos, por isso é o meu Friends. Todas as tramas são só desculpas para aflorar as neuroses dos personagens. Estava revendo o extra sobre esse episódio e o roteirista Tom Leopold conta que a história é inspirada num restaurante chinês perto da sua casa, não muito popular. Ele tinha medo de entrar no restaurante uma vez e ficar constrangido em não entrar sempre, já que passava na frente todo dia. Olha, isso sou eu, eu faço isso!

Enquanto as comédias dos 90 exploravam laços de amizade “sheila amiga”, Seinfeld mostrava essas pessoas como sádicas, egoístas e estragadas que são, te fazia rir das entranhas. É claro que Elaine ajuda George com o teste de QI mais para provar que ela é a mais inteligente deles, que Seinfeld ajuda Babu para se vangloriar da sua bondade e que Kramer quer ficar com o sobretudo porque ficou bem nele e pouco importa que ele seja de outra pessoa. A genialidade é transgredir o fácil e simpático e não promover a calhordice no meio do caminho. Afinal, ser um Costanza ou um Kramer não é se dar bem findos os 20 e poucos minutos.