Se eu não colocar esse cara num avião pra Seattle e pra fora da minha vida, eu vou matá-lo, e todos que tentarem me impedir.

The busboy (“ajudante de garçom”) é o 12º episódio da segunda temporada, e como teria início em um restaurante, o stand-up de Seinfeld já abre com seus questionamentos quanto a não ser um gourmet. O símbolo de alguém que não é gourmet e faz questão de deixar isso claro é o adjetivo “salgado”. Seinfeld exemplifica inclusive desta forma. Nunca me esqueço de Asterix e os gladiadores, quando Obelix prova um bolinho grã-fino feito de “gengivas de baratas da Mongólia” (barata tem gengiva?), e quando lhe perguntam o que achou, apenas responde, lambendo as pontas dos dedos:

Salgado.

Mas voltemos a Seinfeld: é no no stand-up que está a grande frase do episódio, “Voar não me assusta. O que me assusta é dirigir até o aeroporto”. Aeroporto? Voltemos aos restaurantes. Pois o episódio começa com George, Jerry e Elaine em um restaurante, uma mesa de conversas ao vento, falam de tudo, inclusive de mais um axioma: “Homem de meia-idade usando boné é porque está fazendo implante capilar”. Batata. George está resmungando que pediu macarrão ao pesto, e não entende o porquê, já que não gosta de pesto.

O importante é que, naquela mesa, se definem as duas linhas dramáticas (?) do episódio: Elaine comenta que vai ter que hospedar em casa um sujeito com quem ela dormiu durante a estada em Seattle. Elaine já estava se mostrando uma personagem inusitada para a série, com um comportamento sexual mais liberal do que aparentava. Ficou com um cara, mas este acabou “grudando”. Segundo Seinfeld, “a Benes Tattoo ficou muito marcada e difícil de ser apagada”. A missão de Elaine, portanto, é hospedar o cara sem ser grosseira mas também sem ter mais relações.

Minutos depois, um cardápio colocado perto demais de uma vela em uma mesa vazia começa a pegar fogo. George se levanta e apaga. Um mâitre vem em seu auxílio, pede mil desculpas, e arranca de Elaine o seguinte comentário – visivelmente jocoso:

Nunca mais volto a comer aqui.

Eles se sentam e tentam retomar a conversa. Mas o mâitre começa a discutir com um rapaz hispânico, ligeiramente mal-encarado. A conversa termina com a demissão do rapaz – o busboy.

É claro que no fim as histórias se cruzam de uma forma genial, que é nada menos que uma porradaria monumental entre o busboy e o amigo-grudento da Elaine. Os dois se esbarram acidentalmente, acontece uma briga e ambos acabam hospitalizados. Mas antes de ser mais um episódio sobre o Nada, é também uma parábola sobre a importância da clareza na emissão da mensagem. O mâitre, George e Elaine falham. O mâitre não emite sua mensagem direito e não deixa bem claro que vai demitir o busboy por causa do fogo na mesa. George, por sua vez, tenta se comunicar com o busboy sem sucesso, porque não dá o que ele quer: soluções. Inclusive ainda tem a cara-de-pau – em um momento único – de dizer ao recém-desempregado para procurá-lo caso queira se mudar para um apartamento maior. E Elaine errou duas vezes: ao brincar com o mâitre e ao não deixar bem claro que a aventura em Seattle era só uma aventura.

Seinfeld na minha opinião tem função social. Se Jesus tira o diabo do coração das pessoas, só Seinfeld traz “noção” ao cérebro. Imagine quantas mulheres, vendo o que passa Elaine (é IMPAGÁVEL a cena em que ela acorda atrasada para levar o cara no aeroporto), encerraram mais cedo relacionamentos que estavam fadados a terminar em insossa amizade conformista? Imagine quantos garçons ou seus ajudantes deixaram de ser esculachados por clientes que, sei lá, pensaram que poderiam ser responsáveis por um desempregado.

Esta é uma responsabilidade que todos deveriam ter, sempre. Mas pessoas como George só aprendem isso na base da porrada, ou seja, apenas a perspectiva de levar uma surra do busboy é que fazia George se mexer para fazer alguma coisa. Ele vai ao apartamento do busboy – com Kramer – e tenta ajudá-lo, na esperança de escapar dos punhos.

The Busboy não é, definitivamente, um episódio top de linha, mas diverte e tem esse mérito de nos induzir à reflexão sobre “o outro”. É como escreveu uma vez Robert E. Howard (ele mesmo, autor de Conan): “Homens civilizados tendem a ser menos corteses do que os bárbaros. Afinal, não contam, como os bárbaros, com o risco de terem ossos quebrados”. Tudo bem, tudo bem, eu admito que o busboy – mora sozinho, tem gato, usa calça justa e beija o George no fim - está meio longe de ser um bárbaro perigoso.