Seinfeld é uma série que tem uma relação muito íntima com o mundo da sétima arte. Não só os personagens geralmente estão envolvidos em situações engraçadas que ocorrem na fila ou na sala de cinema (até hoje, eu e uns amigos quando escolhemos os lugares falamos ‘these are taken! these are taken!‘), como também vários filmes muitas vezes são cruciais para o desenvolvimento da trama.

A série tem uma longa lista de filmes fictícios que foram responsáveis por diversas confusões. Desses, certamente o mais famoso é “Rochelle Rochelle – a estranha e erótica jornada de uma moça de Milão a Minsk“. Sempre o imaginei como alguma paródia daquela série soft porn Emanuelle, com as mais inusitadas cenas de sexo.

No entanto, algo que me chama a atenção é como Seinfeld sempre menciona filmes propriamente ditos em diferentes episódios. Desde citações visuais, passando reproduções de alguns diálogos famosos do cinema e a presença de estrelas de Hollywood, a sétima arte sempre foi muito importante pra criar graça em vários momentos. No episódio The Barber (o oitavo da quinta temporada), é divertido quando o barbeiro Gino demonstra sua admiração por Johnny Depp em Edward mãos de tesoura. Adoro quando George diz que quando viu os peitos de seu pai teve um momento Traídos pelo desejo, se referindo à tão famosa surpresa do filme de Neil Jordan. Ou quando Elaine, no clássico The Yada Yada (o décimo-nono da oitava temporada), diz que foi ver Striptease para ser ofendida ainda nos trailers.

Mas se esses exemplos acima são meras menções, alguns filmes fazem parte integrante do episódio, chegando a ser o mote principal do roteiro. Abaixo, cito filmes que são centrais em sete episódios de Seinfeld:

Pulp Fiction

The Muffin Tops (o vigésimo-primeiro da oitava temporada) é um episódio que acho que tem uma premissa genial (a idéia de vender só a parte de cima dos muffins), mas cujo desenvolvimento não acho tão engraçado. Uma das melhores partes está no final, quando Elaine finalmente encontra uma solução para o que fazer com a parte debaixo dos muffins: ela chama “The Cleaner”, o cara que consegue resolver qualquer problema. É uma citação a Pulp Fiction, quando o tal “The Cleaner” (vivido por Harvey Keitel) chega e coloca ordem na sujeira causada Vincent Vega e Jules. Em Seinfeld, a graça está no fato do “Cleaner” ser simplesmente Newman, fazendo pose de cool com carrão e óculos escuros. E a solução do problema está em comer todos os muffins acompanhados de gigantes copos de leite.

O Poderoso Chefão

Essa citação também aparece no final de um episódio mediano (The Bris, quinto da quinta temporada) e é sem dúvida a melhor piada. Quando Kramer é escolhido para ser padrinho de batismo, a posição da câmera e dos atores, e até mesmo a trilha-sonora é a mesma do filme de Coppola. O detalhe da porta fechando devagar é perfeito, e a cara da Elaine é impagável.

Perdidos na noite

Outro final de episódio inspirado em filme foi do ótimo The Mom and Pop Store (sétimo da sexta temporada), quando Jerry e Kramer encarnam a cena famosa de Perdidos na noite. O curioso é que a dupla realmente tem uma certa semelhança com os atores do filme – Jon Voight e Dustin Hoffman – em termos de altura e até mesmo aparência. Só que no caso da série, não tem abraço de amizade: Kramer dá logo um “chega pra lá” em Jerry. E o fato de tocar uma versão instrumental de Everybody’s Talking At Me reforça a homenagem.

Apocalypse Now

É no divertidamente insano The Chicken Roaster (oitavo da oitava temporada, o da luz vermelha no apartamento de Kramer) que Elaine tem que ir a Burma atrás de Mr. Peterman depois que ela se mete numa confusão por causa de George e um chapéu caríssimo. Lá ela tenta salvar seu emprego dialogando com seu chefe. O toque de mestre é que a atmosfera onde Peterman é apresentando é a mesma em que o Coronel Kurtz de Marlon Brando se encontra na cena final de Apocalypse Now, lendo T.S. Eliot nas sombras. John O’Hurley como Peterman abusa de sua canastrice e faz chorar de rir como um gênio dos catálogos de compras enlouquecido na selva. O melhor, contudo, está na cena dos créditos, quando Elaine apresenta a ele o “Urban Sombrero” (que o público já conhecia de um episódio anterior). A opinião de Peterman é simplesmente “o horror! o horror!”, assim como Brando faz recitando Eliot. Paródia das mais finas.

O Paciente Inglês

Esse talvez tenha sido o filme mais central de todos os episódios de Seinfeld, tanto que ele se chama exatamente The English Patient (décimo-sétimo da oitava temporada). Enquanto todos se emocionam com a história de amor vencedora do Oscar, Elaine sofre o maior preconceito porque ela odeia o filme. De Mr. Peterman até a garçonete do café, passando pelo seu namorado, todo mundo a maltrata. Acho impressionante como a série não faz concessões e ridiculariza o filme totalmente – desde a longuíssima duração até irreais cenas na banheira. Uma das melhores cenas da Elaine na série inteira é quando ela assiste o filme ao lado de Peterman. Nunca vou me esquecer dela gritando pro personagem do Ralph Fiennes na tela: “just die already!!!!

A lista de Schindler

O episódio duplo The raincoats (décimo-oitavo e décimo-nono da quinta temporada) é um dos melhores exemplos de que tudo poderia virar motivo de piada na série. Ao mostrar o escândalo que é criado quando se descobre que Jerry e sua namorada estavam no maior amasso no meio de uma sessão do filme de Spielberg (“You were making out during Schindler’s List?!“), Seinfeld mostra o exagero da sacralização de qualquer tema. A Lista de Schindler, desde o dia em que foi lançado, se tornou mais do que um filme: é quase um documento intocável do Holocausto, e qualquer crítica a ele acaba sendo algo impossível. A série é esperta em não criticar diretamente o filme, mas a verdadeira veneração que se tem com relação a ele. Na verdade, ao mostrar que se pode ficar aos beijos no cinema durante a exibição de cenas de campo de concentração, Seinfeld acaba por questionar a própria espetacularização do Holocausto, um dos temas mais discutidos da atualidade.

JFK

Talvez não existe melhor exemplo de paródia na história da TV do que o que é  feito com o filme JFK de Oliver Stone no episódio duplo The boyfriend (décimo-oitavo e décimo-nono da terceira temporada). De um arco narrativo aparentemente ridículo (Kramer e Newman acham que levaram uma cusparada do jogador do jogador de baseball Keith Hernandez), Seinfeld faz uma releitura de uma das cenas mais famosas do cinema da década de 90. Em JFK, Kevin Costner (vivendo o promotor Jim Garrison, que tinha toda uma teoria conspiratória sobre o assassinato de John Kennedy) prova em um julgamento que havia um segundo atirador na cena do crime. Se não fosse assim, a bala que matou Kennedy, pelo movimento que fez, só poderia ser uma ‘bala mágica’. Em Seinfeld, Jerry tenta provar a Kramer e Newman que na verdade teria de haver um segundo cuspe; senão pelo movimento que fez, só poderia ser um ‘cuspe mágico’. Não é preciso ir muito longe para perceber a coragem humorística de comparar o evento mais traumatizante do século nos EUA a… uma cusparada. Mas se isso não é suficiente, o ator Wayne Knight (o Newman) está presente também em JFK – exercendo a mesma função que na cena de Seinfeld! E no filme ele se chama… Numa!!! A paródia chega às raias da perfeição, chegando até mesmo à heresia de reencenar o “Zapruder film” e repetir a fala de Kevin Costner no exato momento em que a cabeça de Kennedy explode: ela vai ‘para trás, e para a esquerda’. Só que no caso do episódio, é a cabeça de Kramer que faz o movimento quando ele leva a cusparada. Um dos grandes episódios de Seinfeld, e o que melhor representa não só o uso do cinema em sua narrativa, mas também como a série inovou ampliando o limite do que poderia virar piada na tv americana.

Um Comentário

  1. Daniel
    Escrito 26 de novembro de 2009 em 23:39 | Permalink

    Parabéns, cara. Muito bom seu texto.

    :D

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