“Você acha que há pulgas no mercado das pulgas, não acha? // Não… // Sim, você acha! Você nunca esteve em um mercado das pulgas, e acha que eles têm pulgas lá. // Tá certo, eu acho que eles têm pulgas lá. E daí?”
Sempre gostei de Seinfeld por ser uma série com tiradas geniais. Mas esse episódio não é exatamente um exemplo da inteligência do programa. Ele é cheio de bobeiras. E ainda assim, um dos que mais me fizeram rir. Chego a ficar meio contrariado de achar graça de tantas besteiras justamente no mais brilhante sitcom de todos os tempos. Mas é mesmo como o cartunista e jornalista Arnaldo Branco me falou: “Esse é um clássico da piada boba elevada ao status de arte”. Disse tudo.
Provavelmente, a grande cena de humor do episódio é quando, durante o recital de piano da nova namorada de George, nosso amigo Jerry coloca uma embalagem de Pez (ainda falarei sobre a guloseima) sobre a perna de Elaine, fazendo com que ela dispare a gargalhar e tenha que deixar o evento. Essa situação vai causar repercussões no relacionamento do atormentado George com a tal pianista, que fica revoltada com a grosseria, sem saber que veio de uma amiga do novo namorado. Outras situações vão surgindo, claro, e a imaturidade de Jerry parece contagiar todos os personagens durante o episódio e suas subtramas, com resultados hilários.
E o que é o “Pez dispenser” do título? Quem viu o episódio deve ter reconhecido a velha embalagens de pastilhas, que vinha com uma cabeça de um personagem qualquer de desenho animado. Tinha no Brasil, se não estou delirando (corrijam-me se eu estiver errado). O Pez é tão popular nos Estados Unidos que alguns de seus “dispensers” chegam a ser vendidos por US$ 7 mil a colecionadores.
O Pez é apenas um dos elementos da cultura americana explorados nesse episódio. Em um momento, Kramer fala nas palavras-cruzadas Jumble. Em outro, George e Jerry comentam sobre o Postum, uma bebida em pó sem cafeína usada para substituir café. Kramer entra para o Polar Bear Club, grupo que mergulha em águas geladas. E Elaine chama Jerry para uma “intervention”, que é quando amigos tentam convencer um usuário de drogas a confrontar seu vício (só fui saber dessa prática vendo Seinfeld). Isso sem contar a hora em que Jerry chama George de “Biff”, como no episódio anterior, aludindo a uma personagem de A morte do caixeiro viajante, de Arthur Miller.
À parte de todos os risos bobos e das variadas referências à cultura americana, há um momento típico de brilhantismo da série, com uma implacável análise de comportamento aplicada a uma situação cômica: George comunicando o rompimento da relação com a namorada, para se antecipar à moça e sair por cima. A alegria que o assalta quando ele surpreende a pianista é sensacional. Quase um êxtase infantil. Foi o jeito que teve para ter “a mão”, o controle sobre o relacionamento. E o interessante é que toda a história com a pianista acaba, mais adiante, com uma piada um tanto quanto grosseira para os padrões seinfeldianos, relacionada a masturbação. Mas todos perdoam, porque veio bem embalada. E também, ora diabos, porque devemos dar a mão à palmatória e admitir que foi uma tirada bem eficaz. Como de costume.
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6 Comentários
Lembro de ter discussões demoradas com um amigo sobre o porquê de Elaine ter achado tão engraçado o Pez Dispenser. Mas depois percebi (como vc disse) q tudo era uma grande bobeira, e todo mundo já passou por um momento desses em q não consegue parar de rir por causa de algo bem infantil. E a risada da Elaine é muito muito muito contagiante (vide os erros de gravação sempre causados pq Julia Louis-Dreyfus não conseguia parar de rir).
Não, Ulisses, você não está delirando, eu tinha um pez do Pluto, isso nos anos 70/80. Houve uma modinha nessa época.
Mas voltando ao que interessa, eu adoro esse episódio. Também sofro de ataques de riso bobos, principalmente em situações em que é inadequado dar risadas. Isso até tem nome: frouxo de riso. Acho que é mais comum entre mulheres, lembram da Nair Belo? Pois é, o estopim do riso geralmente é uma grande bobeira. O que tem de comum nestas situações é o inusitado, o inesperado, o constrangedor, o embaraçoso, e claro, se for impróprio dar risada, mais vontade de rir se tem. E as pessoas em volta acabam sendo contagiadas. É o que acontece nesse episódio. A grande sacada é que ele explora as conseqüências desse riso ‘inapropriado’, deixando tudo mais engraçado ainda.
Oi, Cátia
Realmente não delirei, nem tive memórias implantada a la Wolverine. Passei hoje num supermercado e há Pez à venda até hoje, a R$ 12,99, na rede Pão de Açúcar. Tinha cabecinha do Bart Simpson, até.
Sobre riso frouxo, vc disse tudo. Já aconteceu comigo qdo eu fazia curso de inglês. O diretor do curso foi assistir a uma aula conosco, na minha turma, e já tinham me advertido que eu não poderia fazer gracinhas. Mas eis que justamente nesse dia, o gordinho careta da turma chega atrasado com um novo penteado, com um grande topete de Elvis Presley e roupas moderninhas. Eu não consegui parar de rir e fui convidado a deixar a aula para beber água, sob olhar austero do diretor do curso. Esperei uns 10 minutos pra entrar de novo e não pude mais olhar nem pra sombra do Geléia (era o apelido do gordinho).
Ehehehehe, mais um classico do Seinfeld, com certeza rir de uma situação boba e não conseguir controlar o riso já aconteceu com todo o mundo, por isso Seinfeld é genial, até a coisa mais boba que ocorre no nosso dia dia entra na série, enfim George no final se dando mal kmo sempre, Kramer com um grupo de amigos inusitados. Seinfeld no seu melhor
Nunca entendi porque a Elaine acha tanta graça do Pez, mas pode ser ataque de bobeira mesmo. Sobre o frouxo de riso que a Cátia falou, há uma outra sitcom que tem um episódio brilhante sobre isso (eles batizaram de “Giggle Loop”): Coupling. Recomendo.
Episódio espetacular.