“Ah, a carona. É como a sedução do canto da sereia. Nunca é o que parece ser. Ainda assim, quem de nós consegue resistir a ela?”

O grande lema de Seinfeld era que se tratava de uma série “sobre o nada”. Muita gente já falou que isso é meio furado. É, na verdade, uma série sobre o cotidiano de quatro amigos (alguém lembrou de Friends?). Ou mesmo uma série sobre um comediante e as situações que inspiram seu stand-up comedy. Sinceramente, não tenho opinião formada sobre isso. Quem tiver, por favor, que se manifeste nos comentários.

Mas se os partidários da crença de que Seinfeld é realmente uma “série sobre o nada” precisarem de um exemplo para defender seus argumentos, podem muito bem pegar este episódio. “The jacket” é quase um episódio sem história. A trama se resume, praticamente, a “Jerry e George precisam ficar com o intimidador pai de Elaine enquanto ela não chega para um encontro”.  Só isso. Simples. Precário. Mas, como estamos falando de Seinfeld, é o bastante para encaixar várias situações que despertam risos.

As pequenas neuroses e flagrantes do ridículo humano estão presentes mais uma vez. A roupa que nos faz sentir melhor que todo mundo (a tal jaqueta do título), a música que não sai da cabeça, o ódio ao amigo que te deixou sozinho com uma pessoa com quem você não tem o que falar.  Sem contar um excelente trecho do show de Jerry, com uma máxima sobre como as pessoas podem se tornar amedrontadoras depois que se tornam pais, pois passam a ter o poder de criar gente.

É bom reparar no crescimento do personagem de Kramer. Ele começa a ter mais espaço. Em vez de só aparecer para soltar um gracejo, passa a criar situações que complicam os outros amigos. Kramer é como o George Harrison nos Beatles. Começou ofuscado e com os anos foi mostrando como podia render e trazer à luz canções como “Something”. É isso. Kramer vai se preparando aqui para também levar “something” à série sobre o “nothing”.

15 Comentários

  1. Escrito 2 de abril de 2009 em 17:00 | Permalink

    Eu lembrei de Friends. Também não tenho uma opinião formada sobre isso, mas não consigo ver Seinfeld como uma série sobre o cotidiano de quatro amigos. Talvez porque tudo se concentra muito mais nas “pequenas neuroses e flagrantes do ridículo humano”, como você mesmo falou, do que na vida de cada um dos personagens.
    E, cá entre nós, eu também teria medo do pai da Elaine. Aquele jeito sisudo, o peso de ser um escritor conceituado… Também teria muito ódio do amigo que me deixasse sozinha com aquele senhor.

  2. Escrito 3 de abril de 2009 em 14:54 | Permalink

    The Jacket, assim como o do restaurante chinês e o do estacionamento o shopping, é dos mais absurdos episódios de Seinfeld que reafirmam essa coisa de série ‘sobre o nada’. Essa situação de ficar um tempo com pessoas q vc mal conhece (e nem quer conhecer) é uma das que mais odeio e acho q foi torturantemente bem representada no episódio.

  3. Escrito 3 de abril de 2009 em 16:42 | Permalink

    Acho que não compararia Seinfeld com Friends. Em Friends, eles todos são ‘bonzinhos’. Em Seinfeld, os quatro não hesitam em ‘sacanear’ um ao outro na primeira oportunidade.
    Pior que Jerry, Elaine, George e Cosmo, só o pessoal do seriado It’s always sunny in Philadelphia. Para mim este seriado é um Seinfeld hardcore. Seria como se Seinfeld fosse Sessão da Tarde e It´s always sunny um filme do Rocco Siffredi.

  4. Escrito 3 de abril de 2009 em 22:58 | Permalink

    Eu não consigo imaginar, para dizer assim sem ficar pensando muito, numa cena melhor do que a do George querendo saber quanto o Jerry desembolsou para adquirir a sua tão querida jaqueta. Não estou falando só desse episódio. Estou falando da série inteira. Até a forma dele perguntar “when did this happen?” mostra bem como a jaqueta se torna um grande evento. No início da cena é o Jerry quem fala mais – ah, essa jaqueta mudou a minha vida, ah, quando eu visto essa jaqueta eu consigo me sair bem em qualquer desafio social. Estupefato com o que está vendo, George parece querer permanecer calado até encontrar a descrição perfeita – e o que lhe vem à cabeça é dizer unicamente que a jaqueta é fabulosa. Ele entorta o pescoço para trás, revolve a mão de um lado para o outro e enche a boca para dizer que a jaqueta é fabulosa. Depois disso o cenário se inverte. Jerry é que fica calado e da boca do George começa a jorrar uma pletora inconsequente de perguntas e exclamações, um estado de perplexidade tomando conta de todo o seu espírito até o ponto de o deixar louco. Trezentos, quatrocentos, mais de quinhentos. Não pode ter sido setecentos. Meu Deus do céu, mil dólares. O Jerry teria sido maluco o suficiente para pagar mil dólares naquela jaqueta? Tudo bem, tudo bem. Era para o Jerry só dizer quanto a jaqueta tinha custado na hora em que ele se sentisse confortável. George esperaria. A cara do Jerry apalpando os bolsos e basicamente ignorando o ardente desejo que o amigo tinha de saber o preço da jaqueta é uma das marcas registradas dele – a da indiferença. O máximo que ele faz é cruzar os braços e encarar um histérico George tentando descobrir o raio do preço. Absolutamente perfeita, essa cena.

  5. Escrito 6 de abril de 2009 em 14:07 | Permalink

    Tem a história da música do musical “Les Miserabiles” que não sai da cabeça do George…”Master of the house…” é nesse? acho que é…

    • Escrito 6 de abril de 2009 em 14:36 | Permalink

      Esse mesmo, Haroldo.
      O lance da música que não sai da cabeça é uma coisa até normal de ser falado. Uma observação trivial. O curioso é que em vez de uma música pop, em uma crítica ao formato chiclete dos hits de rádio, a série fala de uma canção de Les Miserable.

  6. Escrito 7 de abril de 2009 em 15:45 | Permalink

    “bom carma pra você” é desse episódio. grande frase, falo sempre.

  7. Kowalski
    Escrito 7 de abril de 2009 em 20:15 | Permalink

    Mais um belo episódio. Como foi dito, Kramer começa a dar sinais de evolução e Michael Richards já injeta um pouco da energia que o personagem viria a ter, embora ainda bastante distante do modelo acabado. George também se aproxima mais do personagem que viria a se tornar. Neste sentido é importante uma frase que ele diz para Jerry: “Não acho que já tive um encontro na vida em que quisesse que o outro cara aparecesse”.

    Além disso, me parece que é mesmo George quem tem os melhores momentos do episódio, como a expressão de desespero quando Jerry diz que precisa ir ao banheiro e o deixa sozinho com o Sr. Benes ou o já comentado monólogo querendo saber o preço da camisa (mas é curioso reparar como Seinfeld consegue fazer rir até mesmo com um silêncio, quando George diz que vai sair do apartamento pensando que custou mais de mil dólares se Jerry não disser nada e ele, que já vinha calado, continua, claro).

    E pra responder a pergunta lançada, considero Seinfeld uma série sobre nada, sim. Só que é bem diferente dizer que algo é sobre nada e dizer que é estúpido. O cotidiano de todos nós é repleto de momentos cheios desse “nada” do qual a série fala. Por isso é impossível não se identificar (e refletir, um feito para uma série sobre nada) com várias situações, como essa de ter que ficar conversando com alguém só por ser isso o que a sociedade civilizada exige. Por isso, a frase do episódio (dita por George, mais uma vez ele) é: “Nós estamos MORRENDO aqui!”

    Ah, uma sugestão: vocês poderiam indicar sempre qual será o episódio comentado na próxima semana. A ordem do dvd está diferente da exibição original e está difícil lembrar de conferir qual episódio veio na sequência.

    • Escrito 7 de abril de 2009 em 23:13 | Permalink

      bela dica, cara. vamos pensar num jeito de fazer. mas pra você saber: estamos seguindo a ordem que foi ao ar. nos dvds eles seguem a ordem de produção.
      curiosidade dos bastidores: ulisses se confundiu também, na hora de escrever.
      enquanto a gente não implementa tua sugestão, você pode saber por aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Seinfeld_episodes

    • Edson
      Escrito 4 de maio de 2009 em 16:06 | Permalink

      Olá Pessoal.. é meu primeiro comentário! Sensacional essa idéia de comentar os episódios em sua ordem de exibição…
      Sobre esta discussão sobre do que se trata a série, acho apenas que dizer que é o melhor show sobre o “nada” é uma ótima desculpa para fazer um show sobre “tudo”… Afinal, o que não poderia ser retratado em Seinfeld?! É uma série que pode tratar sobre qualquer assunto, qualquer reação humana, qualquer situação cotidiana, qualquer fato político… E podemos comprovar isso com a quarta temporada, onde a série fala sobre a própria série, ou seja, temos um show sobre o nada falando sobre uma série sobre o nada!

      Poder falar sobre tudo é o que me faz pensar que mesmo nos dias de hoje Seinfeld seria um grande sucesso se ainda fosse produzido. Não faltaria assunto, pois imaginem quantas situações engraçadas não seriam possíveis após o término do show, com o advento da internet, com a massificação da comunicação via celular, os blogs etc etc etc…

      Abraço,

      Edson

  8. Escrito 8 de abril de 2009 em 19:25 | Permalink

    De fato, o episódio é representativo daquilo que talvez seja o carro-chefe de Seinfeld: situações cotidianas que adoraríamos evitar. Ser deixado sozinho com uma terceira pessoa (sim, TERCEIRA pessoa mesmo, alguém que não chegou para compor) é algo extremamente desconfortável. E a cena é perfeita para trazer à tona este desconforto.

    Desconforto, aliás, que surgiu quando vi o trocadilho envolvendo “nothing” e “something” depois da comparação Kramer-Harrison. Mas tá valendo. Já disse o filósofo Saint-Clair Milesi: um trocadilho nunca pode ser guardado.

    • Escrito 9 de abril de 2009 em 13:43 | Permalink

      Foi mais que um simples trocadilho, Gustavo. Foi um jogo de palavras, uma associação de idéias. Talvez um “trocadilho de contexto”, como diria um amigo meu.

  9. Bernardo Zirpoli
    Escrito 16 de maio de 2009 em 23:49 | Permalink

    Um dos melhores episódios pra mim. Todo redondo. A primeira parte da conversa (antes do intervalo comercial) de Jerry, George e o pai da Elaine é uma das melhores de toda a série. Vi a galere falando de vários trechos aí, mas pra mim a melhor é essa:

    “Nós tínhamos um cara engraçado lá na Coréia. Estouraram os miolos dele pelo Pacífico. Não tem nenhuma graça nisso”. Ri tanto que quase derrubei o notebook (e olhe que já vi esse episódio várias vezes).

  10. Bernardo Zirpoli
    Escrito 16 de maio de 2009 em 23:52 | Permalink

    Outra coisa bem engraçada que esqueci de comentar é quando George fala o lance do gelo e Jerry fica concordando bem empolgado. Em contraste com a cara do pai da Elaine. Merece um pause no quadro.

Um Trackback

  1. Por The stranded em 13 de agosto de 2009 às 9:23

    [...] o episódio. “The Stranded” também faz referência a um outro episódio, também clássico, “The Jacket”, na hora em que Jerry diz: “Pendant? Aqueles miseráveis!” Ele cita a reação do pai de [...]

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