“Um caso, oh meu deus, isso é tão adulto!”
Nesse episódio Seinfeld segue um motorista que bateu em um carro estacionado sem deixar nem um bilhete para tirar satisfações, descobre que é uma mulher linda e resolve esquecer o episódio e chamá-la para sair. Na outra ponta da trama, George estraga um casamento quando diz “God bless you” (Deus te abençoe, nosso popular “saúde!”) para o espirro de uma mulher – que, agradecida, percebe que nunca ouviu um do marido.
É uma brincadeira sobre como certas convenções sociais tem status de Letra de Lei, e quebrá-las pode provocar reações exageradas. Aqui, George tem um caso com a mulher dos espirros negligenciados, depertando a ira do marido, e Seinfeld passa perrengue com a motorista desleixada quando descobre que não deixar bilhetes depois de bater com o carro é só o traço mais suave da sua psicopatia total.
Esse episódio é bastante exemplar sobre como funciona a mente dos personagens. As conclusões que tiram dos problemas que inventam (ou em que esbarram) só são facilmente identificáveis para nós porque, como disse Costanza em outro episódio, temos “acesso a sua demência”. A discussão sobre como falar “God bless you” depois que alguém espirra não ajuda ninguém a se sentir melhor é muita lógica de maconheiro.
A subsubtrama do Kramer tendo uma espécie de ataque epilético toda vez que ouve a voz da apresentadora do Entertainment Tonight é meio boba e evidentemente só existe como mecanismo detonador para a piada do desfecho, que nem é boa. Uma pequena falha do episódio, muito bom no geral.
E aqui um comentário de roteirista. A frase do Costanza sobre adultério ser algo muito adulto e lhe lembrar meias de seda, martinis e William Holden me dá inveja dos roteiristas americanos, que podem usar esse tipo de referência – detalhes que aludem a todo um universo – para fazer piadas. O público aqui é subestimado, embora eventualmente mereça.
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4 comentários Comente!
detalhe no diretor desse episódio: o george
Fico pensando se o tipo de piada não seria um traço cultural americano ou se isso seria resultado de um histórico mais longo em comédia. Muitas tentativas de “humor inteligente” e que exigem mais repertório acabam não vingando por aqui, porque nem todo mundo alcança. Por outro lado, também não se faz tanta comédia assim e o público acaba viciado no tipo de humor digestivo.
Há uns anos, a “elite” tem acesso às comédias americanas e também ao humor inglês. Mas fica bem outsider mesmo, reservado a uns poucos. Muita gente não gosta de Saturday Night Live, por exemplo, mas talvez porque não tenha desenvolvido um olhar mais abrangente sobre a própria compreensão do humor. Há que se treinar isso!
Boa reflexão. Valeu! Vou rever o episódio porque não me lembro do desfecho bobo. Um grande abraço.
Algumas referências são feitas quase gratuitamente em episódios, como me falou outro dia um amigo comentando séries. Ele se referia a uma referência sombria a Monthy Pyton em um episódio de Family Guy, que não ajudava em nada ao roteiro nem fazia piada. Foi só jogado lá, para fazer os telespectadores mais antenados se regojizarem com a própria cultura. Aqui no Brasil, referências assim talvez tivessem o mesmo efeito. Mas me pergunto se em Seinfeld não poderia ocorrer a mesma coisa. Será que a massa de telespectadores americanos saca essas referências em Seinfeld?
Claro que a fatia de americanos que pegam essas coisas deve ser maior do que a fatia de brasileiros que conseguiriam alcançar essas referência. Ainda assim, acho que a maioria, mesmo entre os americanos, não pega. A gente se esquece que o povão americano não é tao esperto e dá show de estupidez em vários assuntos. Mas nem por isso os roteiristas vão deixar de usar. Talvez saibam mirar bem no seu público alvo.
Esse negócio de referência, aqui no Brasil, é complicado. O povo só entende de for Ronaldinho com travestis , ou novela das oito no casseta e planeta. E tem que ser a novela que está passando, senão também não funciona.