“Sabe uma coisa ótima? Quando você lê ‘Moby Dick’ pela segunda vez, Ahab e a baleia se tornam grandes amigos”
O lance de Seinfeld ser “sobre o nada” nunca me pareceu correto. A argamassa dos roteiros é sempre composta de neuroses, mal-entendidos e pequenas obsessões dos personagens, e das quais frequentemente compartilhamos. A beleza é essa recusa absoluta de justificativas dramáticas para essas coisas. Elas simplesmente surgem, causam um certo estrago e desaparecem. E ressurgem em algum episódio adiante, sob outro contexto – afinal, nunca há lição a ser aprendida.
A angústia de George no começo do episódio é um dos bons exemplos dessa aleatoriedade. Ele desabafa com Jerry sobre sua vontade de terminar um relacionamento, mas no começo da conversa ele claramente não tem a mínima ideia do porquê. George sendo George, o que se segue é uma tentativa hilária e conturbada de racionalização de uma decisão sem sentido, com a qual Jerry concorda cinicamente (e reparem no final do episódio, quando Kramer assume o papel de Jerry e este, de George).
Como nos melhores capítulos da série, o problema de um elemento da turminha é transferido para o outro, geralmente agravado. Aqui, quando George convence Jerry a buscar alguns livros que esqueceu com sua ex – aliás, livros babaquíssimos como Staying Well – The Gentle Art of Verbal Self-Defense –, Jerry acaba se envolvendo com a mina, rumo a um desfecho em que, num lance de mestre, o material de stand-up de Jerry é criticado de forma cruel.
Gosto desse episódio, mas o conflito aqui, apesar de engraçado, é de uma escala muito pequena e as subtramas nunca se entrelaçam de verdade. Numa safra de melhor qualidade, o vizinho que ignora Elaine seria o quiroprático que George se recusa a pagar integralmente, e Kramer se envolveria em algum tipo de confusão na devolução da fruta no supermercado que acabaria rendendo prejuízo a Jerry.
Pra encerrar: eu sempre me RACHO AO MEIO de dar risada quando o George engole a mosca. Não tem como não adorar um momento como esse.
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11 Comentários
George e a mosca é foda mesmo
abs
Acho que é a primeira vez que a Elaine aparece como uma “queen of confrontation”, o que depois ela vai levar ao extremo quando ela se revolta contra uma mulher que fica dizendo que ela comprou um par de sapatos na “Ooh, Botticelli’s”. E a sua foi uma bela sugestão para o roteiro, viu?
Acho genial quando a a ex do George fala para o Jerry que viu um stand-up dele e que não gostou; ele tenta convencê-la de que a culpa foi do público, mas ela responde “Eu ouvi o material”. Daí ela emenda que não consegue sair com uma pessoa se não respeita o trabalho dela.
ainda bem que a ju não é como a marlene. estaria ferrado por causa do http://eduardos.tumblr.com/
Esse é um daqueles episódios de frases históricas. Na hora em que revi e a moça diz pro Jerry que não pode ficar com alguém cujo trabalho não respeita, pude falar junto com o personagem: “but you’re a cashier!”. A série não teve medo de mandar uma piada dessas e ficar mal com os caixas de todos os Estados Unidos. No Brasil, se uma série manda uma coisa dessa, seria boicotada pelo Sindicato dos Caixas.
Concordo com o que o Daniel falou, sobre o lance de as situações ainda não serem muito complexas, não se entrelaçarem. Principalmente a coisa da devolução da fruta, que podia ter mais confusão incluída. E vou além. A parte do Constanza engolindo a mosca poderia render bem mais. O roteiro poderia desenvolver muito essa situação, mas morre ali. Pena.
A melhor parte pra mim neste episódio é a observação sobre livros que o Jerry faz. Muito bem sacado falar dessa obsessão das pessoas por manterem na estante livros que já leram. A parte “What is this obsession people have with books? They put them in their houses – like they’re trophies. What do you need it for after you read it?” deveria estar lá em cima deste post, no lugar do comentário sobre Moby Dick, aliás.
Ah, Ulisses, mas eu acho tão engraçada a frase (com a entonação do Jerry) sobre Moby Dick
E digo mais: prefiro o lance do George engolindo a mosca sem maiores desdobramentos. Em geral o lance do entrelaçamento das tramas é sensacional, mas esse momento é tão aleatório e fulminante que pra mim ia meio que perder um pouco a graça se fosse desenvolvido demais. Esses momentos inconsequentes também são foda, quando esparsos e bem escolhidos.
Sim, sim. A entonação dele diz tudo. Mas fora do contexto, fica sem sentido. Eu mesmo não lembrava da frase. Quando li ali em cima, achei que fosse uma afirmação de alguém sem-noção. Só no episódio é que lembrei que era o Jerry sendo sarcástico.
a frase fica engraçada com o jerry falando por causa da coisa do “jerry engraçadão”. essa é uma coisa que, apesar de eu achar que é óbvia desde sempre, eu tenho reparado mais agora, revendo. eu to achando mais evidente a coisa do jerry fazer essas piadinhas, que às vezes são bem idiotas
O entrelaçamento das tramas não era tão comum no inicio do Seinfeld. Depois que o Larry David saiu é que começou pra valer – com certeza o fato da série ser bem mais “sobre o nada” nessa época se deve a ele.
Não curto muito esse episódio. As únicas partes que eu gosto mesmo é no lance da cirurgia com arquibancada e no clássico “But you’re a cashier!”.
Ah, eu adoro o personagem da mina que é muito bem interpretado. Imaginem apenas receber o roteiro escrito em papel, e conseguir ser, de fato como eles a descrevem, sexy e chata, de um jeito bem específico, bem mole, nem sei como definir ao certo, mas é um personagem ótimo , muito bem interpretado e foge bastante do lugar comum. Seia muito fácil a atriz errar a mão ou não entender do que se tratava.