“Aterrisse na calçada. É propriedade pública.”

Sou adepto da corrente de pensamento ocidental que recomenda o uso livre e irrestrito de referências a “O Poderoso Chefão” sempre que há gancho, seja ele pertinente ou não. Por isso, há felicidade abundante neste episódio em que um convite para que Jerry e Elaine sirvam do equivalente a “padrinhos” na cerimônia de circuncisão do filho recém-nascido de um casal de amigos dá brecha a imitações nada convincentes de Don Corleone. É provável que a incapacidade de Jerry e Kramer imitarem de forma satisfatória Marlon Brando tenha sido uma piada erguida sobre uma incompetência real dos atores, mas tudo funciona a contento, tá tudo bem.

É nesses episódios que a estrutura dos roteiros da série, de teia de tramas interconectadas, redime o que seria um fracasso completo caso o foco se dirigisse apenas à velha abordagem do desconforto de Jerry e Elaine com as funções supostamente nobres que ganham na circuncisão do moleque. É território que costuma funcionar na série, mas a própria premissa soa frouxa de cara. Um indício de que os próprios roteiristas tenham tido a mesma opinião é a inclusão do personagem do mohel, o cidadão que faz a intervenção cirúrgica-religiosa na criança. Histérico, gratuito e bem engraçado, destoa bastante do conjunto e fica evidente no seu papel de muleta, numa vibe Zorra Total de humor pela excentricidade sem rumo – apesar do sensacional monólogo sobre cacos de vidro no tapete.

A melhor coisa do episódio é a trama de George, em busca da aparentemente impossível reparação financeira depois que um suicida salta do hospital e cai em seu carro perfeitamente estacionado numa vaga em teoria privilegiada. Não sei se é identificação exagerada com George ou sinal dos tempos, mas a lógica de George – um paciente do hospital se jogou da janela e caiu no meu carro; logo, o hospital é responsável pelo dano – me parece 100% razoável e nem um pouco insensível. Apesar disso, George aborda a diretora do hospital com um cuidado extremo e hilário, no que é certamente o melhor diálogo do episódio, principalmente pela deliciosa escolha de palavras e argumentação (“The damage, unfortunately, has marred an otherwise fine automobile, rendering it virtually undriveable“).

E fico feliz, ao ler no verbete do episódio na Wikipedia, que o sábio Larry David decidiu que, depois desse episódio, o público presente na gravação dos episódios não aplaudisse as entradas explosivas de Kramer em cena. É, sem dúvida, uma distração desnecessária.

Um Comentário

  1. Edson Morais
    Escrito 31 de julho de 2010 em 17:40 | Permalink

    Concordo plenamente com o resenhista… se um maluco caísse de um hospital sobre o meu carro eu também pediria ressarcimento, ora bolas…
    adoro essa parte do episódio e também toda a piada sobre encontrar uma vaga perfeita. Sempre quando saio com meu irmão e perdemos alguns minutos estacionando, eu falo: “quando eu achar uma vaga boa vou deixar o carro lá por 2 dias”…

    Abraço,
    Edsmorais

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