“Mas eu não quero ser um pirata!”
Este episódio da camisa bufante foi um dos muitos dos que gosto mais do plot secundário do que do principal. A idéia de usar uma camisa ridícula acaba sendo um humor mais infantil e escrachado do que o dilema de voltar morar com os pais novamente, vivido por George. Esta história paralela agrega muito mais ao show do que a obviedade de se submeter à humilhação de aparecer vestido de forma espalhafatosa. O que, em nenhum momento, quer dizer que uma é sem graça e a outra não. Pelo contrário, as duas são excelentes, impecáveis. Apenas prefiro um tipo de humor a outro.
O episódio já começa de forma promissora, com diálogos hilários onde Jerry e George se vêem numa competição de quem tem pais que fazem coisas piores. George então faz o que eu mais gosto de vê-lo fazer na série: veste o ar de “Loser master fodão”, e com as devidas pausas, do alto de sua sapiência e experiência no assunto em questão, tira um exemplo de algo simplesmente imbatível. Sim, George, você é hors concours.
GEORGE: Ouça bem. Minha mãe nunca riu. Jamais. Nenhuma gargalhada, nenhum sorriso, nenhum sorrisinho. Ela nunca fez ‘Ha’.
Em pouco tempo somos apresentados ao plot principal: Kramer arruma uma nova namorada, que fala tão baixo que deixa todos à sua volta constrangidos por não entenderem o que fala. Ela acaba de produzir a roupa que dá o título do episódio – uma camisa branca em estilo pirata. Jerry e Elaine só conseguem se comunicar com ela porque Kramer ajuda com seus próprios comentários em seguida. No entanto, quando ele vai ao banheiro, o casal chuta o balde e passa a concordar com tudo o que ela diz, sem fazer a menor idéia do que seja. E uma delas foi justamente concordar em usar a camisa ridícula no Today Show, da NBC.
E como é impossível assistir Seinfeld sem fazer um constante paralelo com a nossa vida, esta cena também me prendeu. Meu pai tem um problema genético de audição, e tenho percebido que ando perguntando “O quê?” e “Como?” com uma frequência maior ultimamente, o que aumenta minha paranóia nesse sentido. Não sou hipocondríaco, acho eu, mas esse é um assunto que, junto com a inevitável calvície, eu aguardo apreensivamente como um condenado a caminhar por uma imensa prancha até ser jogado ao mar.
De volta ao George, mais uma comparação cruel com a minha vida: a mãe de George insiste para que ele faça um concurso público. Enquanto acha que as oportunidades do governo são uma boa solução para ele, a minha tenta me fazer parar de trabalhar com internet e passar a fazer algo mais produtivo. Ele diz que não quer trabalhar para os correios, e eu digo que não quero ser fiscal de nada nem trabalhar para o IBGE.
Mas o mais bizarro pra mim acontece segundos depois. George não aguenta a conversa com os pais, e sai do restaurante para espairecer. No caminho, esbarra em uma senhora, que fica encantada com suas mãos, e oferece um trabalho de “modelo de mãos”. E eu, recentemente, fui abordado pela designer da agência onde trabalho, que, ao ver minhas mãos, pediu para que a deixasse fotografá-las segurando um cartão para a campanha que estamos desenvolvendo neste momento!
Fala sério! Seinfeld começa e me assustar.
JERRY: Bem, e as minhas mãos? Não entendo como as suas mãos podem ser melhores que as minhas.
GEORGE: O que, você está brincado? As juntas são todas fora de proporção, tem cabelo por toda parte – de onde você tirou que pode comparar as suas mãos as minhas? Essa mão vale um milhão!
JERRY: Bem, é isso que você ganha evitando trabalho manual a vida inteira.
George, claro, passa a se gabar das mãos daí pra frente, e encerra a cena saindo da casa de Jerry, mas não sem antes colocar luvas térmicas de forno para protegê-las na rua. Ahaha, George, você é patético.
Uma surpresa extremamente agradável foi ver uma deliciosa referência ao meu episódio preferido de Seinfeld, o The contest. No estúdio, George descobre que seu predecessor, uma outrora lenda no mundo dos modelos de mão, perdeu a mobilidade definitivamente devido ao excesso de masturbação. Ele então tranqüiliza a todos afirmando que seu autocontrole era tão eficiente que já o havia feito até ganhar um concurso especializado.
Por fim, a camisa estraga a vida de todo mundo. Jerry a usa no programa ao vivo, mas diante das piadas do apresentador, acaba confessando que não gosta dela. A campanha de arrecadação de fundos para os sem-teto da Elaine fica prejudicada pelo ridículo que ele passou no ar, e ela é demitida; a namorada de Kramer perde uma fortuna em investimento, e o namoro se acaba; George, ao ridicularizar a roupa, é empurrado pela estilista e cai com as mãos em cima do ferro quente, acabando permanentemente com a perfeição de suas mãos, e de seu novo e lucrativo emprego; e Jerry passa a ser ridicularizado pode onde passa, ouvindo piadinhas sobre sua aparição com a roupa de pirata.
Confesso que me passou pela cabeça dar uma revisada mais atenta no meu armário, por via das dúvidas.
/rating_on.png)
(6 votes, average: 4,83 out of 5)
Um Comentário
Belíssima resenha.
Eu gosto muito da cena na casa dos Costanza, onde a mãe de George serve gelatina.. Acho aquele casal perfeito, em perfeita sintonia e os dois com George são sensacionais.
Jerry e Elaine concordando com tudo que a namorada de Kramer fala é muito engraçado.
Belo episódio.
Edsmorais