“A calcinha que sua mãe escolheu para você!”

A metalinguagem é a figura de linguagem mais presente na 4ª temporada de Seinfeld. Com o seriado já consolidado na emissora – mesmo sem ainda ser o enorme sucesso que seria mais adiante – os criadores decidiram que era hora da série contar a sua própria história, ou seja, o principal assunto seria um convite da NBC para que Jerry criasse uma sitcom.  The Cheever Letters é uma das exceções ao tema principal da temporada, pode ser considerado uma continuação de The Bubble Boy e retrata os acontecimentos posteriores ao incêndio que destruiu o chalé do pai de Susan.

Logo na primeira cena Jerry e George estão discutindo sobre como seria a reação do pai de Susan ao saber do incêndio que destruiu o chalé. Seria o primeiro encontro de George com seus “sogros”, e Jerry faz questão de exibir todo o seu sarcasmo em frases como: “É, você vai causar ótima impressão!“. O raciocínio construído por Jerry para demonstrar toda a ironia daquela situação – Pai de Susan dá charutos a George, que os repassa a Kramer, que deixa um deles aceso no chalé e causa o incêndio – é hilariante.

Kramer entra no apartamento reclamando de não mais poder jogar golfe no clube privado, já que não tinha mais os charutos que usava para “barganhar” um convite. Após pedir a George que peça ao pai de Susan outra caixa – e evidentemente ouvir George dizer que nunca faria isso – Kramer decide buscar outros meios de conseguir seus desejados “cubans” e passa todo o episódio nesta busca. Para os nossos dois contratados da NBC qualquer desculpa é válida para fugir da “obrigação” de criar um roteiro e então Jerry, após ser lembrado por George, telefona para Elaine na Pendant, mas é obrigado a papear com a secretária Sandra antes, o que o chateia bastante. Está criada a trama de Jerry e Elaine: Sandra fica chateada por Jerry ter reclamado com Elaine que precisa conversar por “20 minutos” antes de conseguir ter sua ligação transferida. Elaine pede a Jerry que ligue para Sandra e diga que foi um mal-entendido. Jerry, mais que contrariado, concorda em ligar, mas acaba sendo convidado a sair com Sandra, e se vê obrigado a aceitar. Difícil descrever com palavras o quão engraçada é esta cena, e todo o cinismo de Jerry, reclamando horrores com Elaine e ao mesmo tempo fingindo ter gostado do convite para Sandra.

Na casa dos pais de Susan o jantar não poderia ser mais embaraçoso. George e Susan, após ouvirem Henry comentar o quanto o chalé lhe era especial, se revezam para contar a ele que agora tudo não passava de cinzas e que nada havia sobrado. Engraçadíssimo! Como em Seinfeld nenhuma família é normal, os pais de Susan não fogem à regra. Henry é o homem que nunca ri. Sua mulher, ao contrário, bebe todas e ri de todas as gracinhas de George. Quando fica sabendo que o chalé queimou, mal se contém.  Muito cara de pau o George tentar usar o “raciocínio” de Jerry para fazer com que o pai de Susan ache que toda aquela situação é cômica.

O encontro de Jerry com Sandra evolui para uns “amassos” e “conversas sujas” no apartamento dele, porém tudo termina mal após um comentário infeliz sobre a calcinha dela. Sandra sai com raiva da casa de Jerry, que fica com medo que ela conte o que aconteceu pra alguém, principalmente Elaine.  Concordo com o George, não acho que o comentário seja agressivo. Anormal sim, agressivo não. Aliás, belíssima cena no Monk’s, com o detalhe do catchup voando quando Jerry conta as partes mais “sujas” da conversa com Sandra.

Jerry e George decidem ir ao cinema e passam antes na casa de Susan. Após conhecerem o resto da família – o irmão e uma tia, igualmente estranhos – o porteiro entrega a Susan uma caixa, dizendo ser a única sobra do incêndio. Susan vê que são cartas antigas e acaba por ler uma delas em voz alta, descobrindo e ao mesmo tempo revelando a todos que seu pai tinha um caso homossexual com John Cheever, um escritor americano.

Kramer aparece na casa de Jerry com três amigos que encontrou na Missão Permanente de Cuba, todos fumando os legítimos cubans.

A cena final mostra Jerry tentando discretamente saber se Elaine já sabe dos detalhes de sua noite com Sandra, mas tudo indica que não. Após reembolsar Elaine o valor dos telefonemas que ela fez usando o telefone da empresa e que foi obrigada a pagar após Sandra contar ao chefe, temos um dos mais marcantes momentos de Seinfeld em todos os tempos. Elaine se despede dizendo a todos que sairá para comprar calcinhas, as calcinhas que a mãe dela escolheu. Jerry e George ficam boquiabertos e ao fundo temos o som das gargalhadas mais estridentes do público que presenciava a gravação.

NE: Não há registros de que John Cheever fosse homossexual.

3 comentários Comente!

  1. Posted 18 de dezembro de 2009 às 12:49 | Permalink

    Como já disseram aqui (acho que foi você), todos os episódios desta temporada merecem 5 Seinfelds. Consegui hoje pegar o DVD com um amigo que continha a quarta temporada. Vou assistí-la completa!
    Quanto ao episódio, simplesmente f%#$@. Jerry tentando ver a graça da situação (a ironia do incêndio) é ótimo, E ainda acha ruim de o pai da Susan não ter achado graça.
    Ah, e que tia chata aquela da Susan.
    Quanto à resenha, meus parabéns, bro. Gostei da apresentação que fizeram para você, hehe. Seinfeld e heavy metal são demais!

  2. Posted 6 de janeiro de 2010 às 21:51 | Permalink

    Acho a despedida da Elaine indo “buscar as calcinhas que a mãe dela escolheu para ela” uma das melhores cenas de Seinfeld e, sem dúvida, um dos melhores finais de episódio.

    Acho curioso ver como a família de Susan parecia pobre e desajustada nesse primeiro episódio. A mãe bêbada e brigando com o marido. Nos outros episódios eles aparecem juntos, felizes e, como ficamos sabendo depois da morte da Susan, milionários.

    • Edson Morais
      Posted 10 de março de 2010 às 16:10 | Permalink

      Isso nunca foi explicado mesmo.. além disso, a homossexualidade do Pai de Susan nunca mais foi assunto na série.
      Abraço,
      Edsmorais

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